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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Nas letras não há um método, tampouco análise. Não se traz a palavra na ponta da pinça para a placa de ágar.

A ciência aí é doutra espécie, não se acinzenta a arte; quando muito, acentuamos-lhe as cores. Por isso, escrever sobre livros é ridículo, mais ridículo na pretensão académica de destrinçar positivistamente a metodologia. Não deixar espaço ao adjetivo é não deixar ar ao enfermo, a concisão é falaciosa se escrevo sobre este e não sobre aquele. Escrever sobre literatura é amanhá-la como a um peixe morto e dá-la a ler como uma bula. 

A criança come biscoitos antes do jantar. 

É porque já chegou à prateleira de cima, 

Onde alcança o chocolate e outros prazeres 

Velados, insalubres para a veia. 

Não adianta já 

Esconder: 

Ela chega-lhes, à medida que os vou movendo 

Em altura: 

Ao chocolate, à bolacha 

Ao amor, à desilusão; 

É impossível ocultar-lhos, preservar-lhe  

Os dentes da cárie, o fígado da gordura 

O peito do fulgurante anseio 

E do maninho estertor. 

Do bombom à deceção, 

Frascos enfileirados,  

Na prateleira mais alta 

Onde não lhe chegue 

Embora sempre a alcance 

E eu, de braços ao longo do corpo, 

Impotente à subida 

Ao risco de queda 

Ao perigo do corte 

Do choro e do desengano. 

 

 

Pois eles vieram e treparam à árvore como símios desimpedidos e amputaram-lhe os braços largos apontanto para o céu, caindo com estrondo de morto no chão, e deixaram-me aqui, olhando pela janela, vazia da noção do tempo. Nem as asas terão onde pousar, nem o pio se ouvirá, talvez longinquamente, fazendo-me menos humana no silenciamento das aves. Restam três ou quatro cotos cerrados, ruína contra o céu abafado e cinzento, telhas de barro negro e a calada e resignada noção de fim. 

E agora sentava-me e fumava um cigarro na varanda. Na mesma varanda onde costumava fumá-los às escondidas, o meu vulto ocultando as formas  incertas do fumo, sempre em ascensão como um anjo desalentado. Mas então era escuro e agora dá nesta varanda um sol de janeiro aberto e seco, muito seco para o inverno, num fulgor que dá medo. O medo. Ainda ontem lia sobre ele, os pés gelando sobre a madeira, e o sol num grito sob a lâmina do vidro, uma casa fria onde tantos estudaram a econometria e a arte da sueca, e onde se contam hoje tantas histórias, tantos pareceres, tantas sentenças. Eu não sou juíza, se fosse, teria medo. É que avaliar é tão difícil e alguns mentem sempre. Na sala de espera, na insegurança do não dito da testemunha, mais um mentiroso bafejando, esvaindo-se em palavras sujas, lia sobre o medo, e era o medo que me trazia ali, o medo da injustiça, o medo da mentira, e, mesmo sentindo-o farejando-me as goelas, a mandíbula estreitando-se para a boca, foi, precisamente, a leitura sobre ele que o fez tola aparição sob meus dentes. Mastiguei-o, degluti-o, e era tão seco e insosso, desenxabido, porém, denso e maciço. O medo é como uma lasca oprimindo-nos as gengivas.  

A morte, a perda, a doença, a ausência de um cigarro na varanda. A ausência dos outros quando regressamos. Não nos iludamos. Quando se parte, nunca se regressa realmente. Talvez seja, afinal, a ausência de nós no ponto de partida. E os que ficam são, na essência, quem mais nos recorda dessa partida, que se assemelha, sempre, a uma ausência total, a uma morte antecipada, aos cacos que, ainda com pena, teimamos em varrer para o canto da sala e daí para o lixo. Gostava tanto, mas lixo. Tampa-o bem, não vá desfazer-se ainda a nossos pés. Voltar é ser outra num espaço que se corrompeu, falar outra língua, meter a chave errada na fechadura, acabamos por entrar mas a custo, alguém vem de dentro destravar a língua da porta, forçando-a com a mão que acabará por se fechar. Voltar é procurarmo-nos precisamente onde achamos termo-nos deixado, ecdise, vestirmo-nos de nós, de um eu que já não há nem havia quando partimos. Regressar é ainda mais difícil do que partir. 

Mas que bem que ia agora um cigarro, no silêncio e na luminosidade.

Gosto, na manhã fresca e natural, do grasnar seco e longo das asas obtusas em queda, ato inaugural da vida, corpo e ser em individuação, os bicos negros na direção do poente. Dessa mancha alada contra o céu e a indeterminada matéria que o compõe ante meus olhos fascinados pela sua grandeza etérea e abismal. Gosto de o ver aberto e polido, de um azul ferozmente doce contra a neutralidade da brancura acizentada e outonal. Mas isto são cogitações de quem olha pela janela, certa do seu peso, da palpabilidade do osso e do órgão, da resistência ao voo. 

E que sentido tem se eu me puser agora a escrever sobre o que não tem? -- amor, vida, guerra, pão e água, o desapego, a minha falta de serventia --  se depois escurece? É preciso alimentar os que resistem, parecer firme e educada, sã de cabeça, umbria só de voz, e recomeçar, todas as manhãs, ainda que certa das metades que me povoam. 

E nunca esclarecer este encosto, se sou eu ou a minha incapacidade, a minha hostilidade a mim mesma, ao que me habita desabitando, esse lugar de autoflagelação e autossabotagem, loucura talvez, atestada pela medicina, há neurónios que não se acendem ou se incendeiam na perfeita comunhão da mania. E repara: os nódulos da madeira nos teus dedos fibrosos, como se desfazentes, a verborragia, a compulsividade do choro, o cuspo entre os dentes caindo, a incompletude dos textos armazenando-se sobre a mesa, o cansaço sem sentido, o medo da abertura da porta, a ideação. E a consciência madura do período de enlouquecimento, tendo mão nele, segurando-o, até que se aniquila. 

Regresso a mim, e fica, no entanto, a dor de cabeça zunindo, a gargalhada entredentes dos demais, a ridicularização, a fama de leviandade.

Não é minha intenção dar-vos conta das minhas penas, nem tão pouco explicá-las - o queixume pertence a cada um, mesmo que o digamos em voz alta ou o escrevamos, em delicadas folhas brancas, salpicadas depois por algum composto ultrarresistente. O mais das vezes, estamos sós com a nossa penitência, os nossos lugares vazios, os miolos da indecidibilidade que permeiam a nossa relação com os outros. As palavras que me saem da boca têm outro significado nos canais auditivos vizinhos e, querendo manter a diplomacia, vamos escamoteando o sentido do que dizemos, tão diverso do que calamos. Por isso, atentai nas palavras que vos dou: a alegria de ir vivendo, a justiça do que corre sob a janela, a quentura das mãos junto ao peito. 

Tem vezes que escrevo na mesa da cozinha, só para estar mais próxima do fogão, e se ele fosse de chama, quantos escritos não queimaria, na certeza da destruição do erro, da reformulação da palavra, vezes sem fim, como a máquina da roupa, som de fundo, como que mergulhando-me nessa centrifugação rítimica do pensamento, dando nós nas mangas das camisas, sulcando o espírito, uma sova de água fervente e o tecido amargurado de entalhes fundos, deslaçados a custo, depois, sobre a tábua de passar, os desenhos já gastos, nem se percebe se uma ave ou um pássaro, a ave sempre foi mais poética, o pássaro é só uma coisa com asas vazando-nos os olhos postos no céu azul.

Já experimentei no quarto dos arrumos, mas tem pouca luz e espirro com o pó das coisas velhas que guardamos com a certeza de que as não usaremos novamente, empilhando irrealizações, imperfetibilidades, memórias aos fiapos, meias palavras desgastadas e em surdina, botas de neve ao pé da praia, cestos de piquenique de jardins que ficaram por dizer, vazados os sonhos, vazadas as coisas de sentido, de serventia. É como as palavras e o uso que lhe damos, gaivota perde as asas no seu afã de voar nesta casa fechada, sem espaço para estas coisas de sabotagem do eu, do sentido, do lugar certo do coração e da mão.

Eu digo janela, mas não é suficiente para deixar entrar a luz. A palavra não inaugura já o seu sentido, nem a sua função é ser ele próprio, apenas ressoar do seu reflexo. Digo luz e nem ela se faz nem eu me agito, calmamente sentada, o chá que imagino fumegando, apesar da sua inexistência. Digo ver e nem por isso vejo realmente. O que dizemos é um símbolo daquilo que aparece feito e, estando feito já, obedece a padrões de vontade que nos são exteriores e impercetíveis, fechados em torno de uma existência a que nunca daremos voz. Digo voz e estou já queda em silêncio.

 

Mas eu nem sei o que fazer às mãos,

enrolá-las no vestido, amarrotando o tecido que me deu

tanto

trabalho a aplainar,

corpo a corpo com a quentura do ferro,

ou sacar do cigarro a contragosto,

um cigarro é sempre bom para

dar o que fazer às mãos,

uma desculpa para as elevar, 

fazendo piruetas como quem realmente dança 

no caminho fumegante que deixa 

em declínio para trás.

Mas eu não fumo e

seria bem parvo segurar um cigarro

apagado entre os dedos

que não estão queimados

nem amarelos

nem tudo aquilo que se diz dos dedos

daqueles que fumam.

Não sei o que fazer às mãos.

E não saber o que fazer às mãos é

como não saber o que fazer connosco,

trazê-las retesadas junto ao tronco

ou dadas com embaraço;

pensando bem,

deveria começar a fumar,

para ganhar aquele jeito de quem pensa

encostada ao fumo do cigarro,

e poder levantar a mão com propósito.