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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Gosto de escrever à mão, mas, depois, volvidos os dias e a neblina, é raro perceber a caligrafia. Talvez faça sentido, que nem tudo é de esquadrinhar, nem nós.Serei eu a escrever torto para dar a falsa sensação de mistério, adensando o nada que me parece irresoluto, ou sê-lo-ei em potência? Má caligrafia, talvez, apenas e só - nem sempre se deve justificações psicanalíticas ao real - a pressa de acompanhar o pensamento?

Se as pessoas soubessem que a minha vida se passa toda por dentro destas linhas,

não as liam em diagonal negligência, enquanto dardejam com o dedo 

grosso de béchamel o ecrã do telemóvel no intervalo do almoço.

Se as pessoas soubessem com que violência ela se recolhe nos ansiados alvores

da manhã ainda opaca, não as preteriam com tão amoroso desmazelo.

Eu sei que as palavras minguam em lavores, não se fazem epifânicas,

mas se as pessoas soubessem que a minha vida é de pastoreio sobre vulcões

oh, Poeta!,

Deixavam-se, por um momento, orgânicas, suspensas em sincelo,

pensando nelas

e naquilo que passa, indiferente à vida

e à graça. 

 

 

 

 

 

 

Ele não sabe o significado de mefistofélico e ainda bem,

significa que traz o coração puro e aquiescente.

Ainda assim, defini-lo com base em vocábulos que ele desconhece 

é como não resistir à indecência de sujar o que está limpo

só para ver a reação de quem limpou. 

A aquiescência por extenso não faz dele 

menos ou mais compadecido,

nem os bigodes mergulhados no escuro deste quase poema 

o desfiguram. 

No que conta, eu bem posso devorar-lhe o peito

com as leis da relação sinonímica

sem que ele o sinta sangrar. 

Eles dizem que a realidade não está nas páginas dos livros.

Onde está, senão lá?

Contra a exímia brancura, o sangue

Contra a pudícia, o sexo

Contra a mudez, DE LE TRE AR.

Ainda assim, gosto desse cinismo.

Fazer de conta que não se gosta

É meio caminho andado para gostar. 

 

 

Tenho um relógio que se ri de mim em surdina como um anjo de morte anunciando-a. Ainda assim, prendo-o ao pulso como se fosse adversária honrada. Não me acanho na minha pequenez de mulher predestinada à dissolução e obedeço-lhe, insultando-lhe os movimentos. A resistência é uma parábola da nossa submissão.  

Os gansos rasaram a janela e embeberam-se nos meus olhos, em seta esguia pelo âmbar, e eu mantenho-os na sua rota, delicados e assertivos, longos pescoços declinando a estagnação. O lugar do ir é sempre o bom lugar. 

Há corações pendendo da janela da frente, cabides rosa desabitados, a janela entreaberta, o limiar do amor à descoberta e os treze graus desta manhã soturna vigiando-nos. Há corações pendentes à janela e se eu pudesse, ao menos, mostrar-vos como estremecem esses corações, mas a palavra perdeu-se e não sei agora regatá-la desse ponto sem retorno. O que eu dava para registar num poema vernacular essa aparição dos corações pendendo da janela da frente!

Terá que vos bastar essa descrição tosca: 

há corações pendendo da janela da frente

e neles um mundo que não se gasta

para contemplar

é preciso submetê-lo à raíz das coisas simples

e ser capaz de anunciar

que há corações pendentes à janela!

Se eu soubesse fotografar

e fazê-lo com mestria, veríeis,

mais do que cabides,

e do que palavras mal articuladas,

esses corações pendendo da janela.

Da frente. 

Porque, na realidade, um coração está sempre à janela, esse lugar de transgressão, violência ou desamor, tanto se dá como se recolhe. E mais não há como dizê-lo sem afirmá-lo como uma criança: 

estão corações à janela, há corações na janela da frente. 

Ela perguntou: Tem dias que detesto toda a gente. Isso faz de mim uma pessoa má? Ela respondeu: Não necessariamente, o que te incomoda? Bem sabes, esta necessidade de me saturar de sentidos que o real não nos dá, esse salto para o nada, com a ponta dos dedos como as bailarinas. A melhor imagem para a ficção é a de uma bailarina em pleno voo, o corpo lançado com a virilidade e poder da partida, e a estagnação no ar elevada à eternidade. A ficção é esse momento de lançamento pré-queda, essa imersão num glóbulo espácio-temporal que nos desterra do imediato e do supérfluo. Eu quero lá saber da sopa ou do bife por temperar. E as pessoas, que têm as pessoas? Ora, as pessoas têm relógios e Stundenplanen, essa fragilidade palpável que nos esgota e envelhece, esse corropio de insensibilidades e imposições irrisórias; não me interessa nada. Quero o salto e o vagar dos olhos fechados sobre a ideia, essa execução disciplinada sem amarra. O calado cerrar de dentes e o que se lhe segue. A ficção é toda uma arte do corpo e da sua, espera, que tocam à porta, da sua quietude. 

À quinta, todos estão ocupados. Os da frente elevam a janela basculante e sacodem tapetes cujo pó macula as telhas pretas em descenso, para se arranjarem, depois, em frente ao espelho laminado, cabelos tufados, e a vizinha italiana sobe a escada com a mãe, pesadamente, batendo a porta e cantando como uma ave no verão, enquanto atravessa as divisões do diminuto apartamento. Foram às compras. A mais velha há de regressar a casa, depois da conversa, pelo carreiro de pedra que une os dois jardins relvados e mansos na sua exiguidade maçadora, o seu cabelo em flamas sobre a verdura que dura o verão inteiro e nos molha os pés de outubro a maio. Não raras vezes, em agosto, não podemos sentar-nos em grossas mantas contra a fachada sombria do edifício, e vamos acompanhando o sol em viagem, examinando compungidamente lençóis taciturnos ao dependuro. E eu observo o que me é dado observar enquanto os primeiros gansos soltam grasnidos tímidos, anunciando o outono. Fechasse os olhos por muito tempo, reconheceria as estações e os dias da semana com perfeita exatidão. É que todos os dias o real me conta histórias no silêncio que eu faço, na solidão das paredes fechadas. Cada porta encerra segredos que nenhum de nós reconhece, a não ser pela imaginação precipitada da resposta neofreudiana dos achaques dos vizinhos. Mas eles são tão fantasmagóricos - as portas fecham-se antes que pisemos os degraus que abrem para os patamares sempre tão vazios - que talvez não existam senão na minha invenção. Não os conheço nem eles me reconhecem o dom de lhes dar vida. Ingratos. Sonâmbulos e infelizes. Nem uma paixãozinha, um estremeção, vívida demonstração da sua existência. 

Observo a criança. Há de cair e talvez perfurar a pele salgada, mas contenho-me, olho apenas na certeza da minha impotência. Levantar-se-á. É todo um processo a que se assiste, do lugar desabitado dos deuses. Tudo tem lugar no espaço da casa, tutelar e opressor, enquanto passo a ferro. A tia dizia dar a ferro, é uma tia já velha e enrugada, muita história contava depois de descer do autocarro. Era um tempo em que as crianças vestiam Bambola, uma marca infantil que transige com o tempo dos sonhos e das possibilidades. Era um vestido verde de algodão, com pontos debruados na roda da saia e a lisura do peitilho, ainda uma saia cuja t-shirt, três cestas de grandes ramalhetes ali pintadas, pouco se usou, e que se admirava em cima da cama,como um tesouro velho a que o nosso corpo não mais se ajusta. A primeira desilusão com o tempo, com o nosso envelhecimento, esse músculo tenso, retesado e depois ironicamente liberto nas mãos cerzidas.