Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Portanto, hoje deu-me para chorar. Podia ter sido verdadeiramente pior, podia ter-me dado vontade de me atirar ao rio e deixar-me sucumbir lentamente à pressão da água, ao peso incontrolável dos meus pés a adormecerem sob a frieza da água, dos braços não em riste como o aflito, mas deleitosos ao escorrer pela massa aquática, plantas e arbustos, peixes curiosos, reluzentes e esquivos, ensimesmados com a destreza perante este ofertório à deglutição das águas. Mas não, água só dos olhos, até secarem e ser doloroso o esforço de fazer fechar e fazer abrir as pálpebras. Numa cena mais desagradável e áspera do que comovente, patética, debruçada sobre a porcelana gélida da sanita, passei em revista a infeliz realidade com que me vejo envolvida: 33 anos, desempregada, com filhos para criar e o sentimento de perda total, de inconstância e de instabilidade. Um GPS sem coordenadas,sem planos, sem sonhos, sem lugar no mundo, onde a minha voz é tão inaudível que se volta constantemente para dentro para o lugar de onde veio, cada vez mais surda e enrodilhada na sua própria inexpressão. Bem sei que esses tais a quem chamaram românticos só porque calhou olharem para a realidade com mais do que o pensar já cá não fazem falta nenhuma, ou que o pesadelo do século XX, isso da solidão, do desespero já não se usa; hoje é só amizades do dedo em riste, e hashtags filosóficos, ou captações fotográficas instantâneas e artísticas, talvez um psicólogo em vez de um amigo e uns antidepressivos antes de dormir. Mas eu nem tenho paciência para estar deitada enquanto alguém tira apontamentos, nem organização para tomar consistentemente quaisquer tipo de mezinhas; prefiro beber um tinto daqueles bem feitos, lá do Douro, e descascar meia dúzia de batatas enquanto as insulto de todos os nomes feios que nos proibiram à nascença - sabe-se lá por que razão, que não há melhor cura para o nervosismo do que o descalabro de meia dúzia de palavrões bem desenvoltos e escorreitos, devidamente pronunciados, que é como quem diz, com as letras e a devida acentuação, e se for com sotaque melhor; encher bem a boca para fazer as curvas todas de um 'caralho foda esta merda'. 

Enfim, não estou na moda. Pensar custa tanto. E eu nem gosto de novelas, é pena, porque se não houvesse novelas metade das mulheres deste país já se tinha atirado para debaixo de um comboio. A novela ou outra treta destas ameniza o pensamento, acalma a aguda reflexão sobre o ser, a angústia da solidão. Um dia destes, qualquer estudo de uma qualquer universidade vai revelar finalmente que a novela salvou milhares. Pena que não seja literatura ou outra arte. Talvez num futuro utópico as pessoas aliviem e encontrem resposta numa linha de Mia Couto (naquela que diz assim: "O mundo que é nosso/ é sempre tão pequeno e tão infindo/ que só cabe em olhar de menino"), ou num verso de Torga, ou numa sinestesia de Sophia.