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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Pensava assim: a pior atividade e, de longe, a mais ingrata, é a de dona de casa porque, na verdade, nada do que se faça representa, aliás, é uma construção, mas uma tentativa despudurada e sórdida de manutenção. Como é um propósito de manutenção, situa-se, contraditoriamente, no campo do inerte, da imobilidade e paralisação.

Não há avanços, evolução, projetos, metas, apenas objetivos repetitivos. Trata-se, pois, de mera dissolução no nada, no momentâneo, no efémero da nódoa e da migalha, do cabelo e do calcário, da gordura e do pó. É a evidência mais resplandescente do nada que a vida representa quando comparada à morte: acordar nas manhãs ainda de névoa, rencontrar as mesmas faces escalonando o asfalto do bairro, pedalar, apanhar o comboio, ver fantasmas planando sonolentos, descer na plataforma e atravessar a rua, beber o café, trabalhar e regressar a casa para, no dia seguinte, repetir o mesmo até que a morte venha. Não, a morte não é absurda, o absurdo é como gastamos a vida.