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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A criança come biscoitos antes do jantar. 

É porque já chegou à prateleira de cima, 

Onde alcança o chocolate e outros prazeres 

Velados, insalubres para a veia. 

Não adianta já 

Esconder: 

Ela chega-lhes, à medida que os vou movendo 

Em altura: 

Ao chocolate, à bolacha 

Ao amor, à desilusão; 

É impossível ocultar-lhos, preservar-lhe  

Os dentes da cárie, o fígado da gordura 

O peito do fulgurante anseio 

E do maninho estertor. 

Do bombom à deceção, 

Frascos enfileirados,  

Na prateleira mais alta 

Onde não lhe chegue 

Embora sempre a alcance 

E eu, de braços ao longo do corpo, 

Impotente à subida 

Ao risco de queda 

Ao perigo do corte 

Do choro e do desengano.