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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Mas eu nem sei o que fazer às mãos,

enrolá-las no vestido, amarrotando o tecido que me deu

tanto

trabalho a aplainar,

corpo a corpo com a quentura do ferro,

ou sacar do cigarro a contragosto,

um cigarro é sempre bom para

dar o que fazer às mãos,

uma desculpa para as elevar, 

fazendo piruetas como quem realmente dança 

no caminho fumegante que deixa 

em declínio para trás.

Mas eu não fumo e

seria bem parvo segurar um cigarro

apagado entre os dedos

que não estão queimados

nem amarelos

nem tudo aquilo que se diz dos dedos

daqueles que fumam.

Não sei o que fazer às mãos.

E não saber o que fazer às mãos é

como não saber o que fazer connosco,

trazê-las retesadas junto ao tronco

ou dadas com embaraço;

pensando bem,

deveria começar a fumar,

para ganhar aquele jeito de quem pensa

encostada ao fumo do cigarro,

e poder levantar a mão com propósito.