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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Ah, e depois, envelheces, e não te alcança já a beleza do músculo sápido, das maçãs do rosto erguidas como um altar. Resvalas, distrais-te, desmazelas-te, e nem te reconheces ao espelho, ou nas superfícies vítreas poeirentas das lojas em fugazes e surpreendentes encontros contigo. Pisas folhas secas e murchas com elas, e embaraça-te a figura ridícula. Ninguém te olha, te enxerga, te admira. Vais na rua como sombra, quimera ausente, fogo-fátuo.

E dizei-me se é supérfluo vigiar as pregas da pele, ou se o martírio vem, afinal, de dentro, do lugar onde vence o coração,

onde o enganamos, sussurrando qualidades que não temos, tergiversando egoísmos e defeitos.

Ah, e depois, envelheces, e o interior apodrece.