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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Faz-me falta o campo onde existe, em cada despertar, uma sensação límpida e inteiriça da vida e da morte. A cidade é uma eternidade fingida, bacoca, simulação mal construída da infinitude que, por ser desprovida de seriedade, nos alimenta as vaidades. Mesmo que os parques nos permitam adivinhar a estação do ano, toda a articulação dos dias assenta no horário maninho, na circulação infinita e no desfasamento que cada universo humano constitui. Junto a um prado, a vida rural portanto, sei estabelecer a vívida roda, a noção de início e fim, sempre em recomeço. A eternidade aí se constitui por variação, enquanto que na cidade o dia é sempre o mesmo, faça chuva ou sol. O sino das capelas aldeãs faz-nos sempre questionar quem morreu e dá-nos, subtilmente, a noção real da nossa limitação, impondo-nos, por essa contraditória razão, a vida. Não se trata de conhecermos todos os que lá residem, a maioria das vezes não os reconheceríamos na rua; trata-se antes da regalia que o contacto com a natureza nos propõe: uma humanidade profunda, que nos leva a olhar o outro com a benevolência de um bicho. 

Faz-me falta uma nesga de terra para me segurar ao eixo. Que me puxe para baixo e deixe a gravidade atuar até ser gente de osso e carne e músculo e não esta aparição entre aparições.