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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

À quinta, todos estão ocupados. Os da frente elevam a janela basculante e sacodem tapetes cujo pó macula as telhas pretas em descenso, para se arranjarem, depois, em frente ao espelho laminado, cabelos tufados, e a vizinha italiana sobe a escada com a mãe, pesadamente, batendo a porta e cantando como uma ave no verão, enquanto atravessa as divisões do diminuto apartamento. Foram às compras. A mais velha há de regressar a casa, depois da conversa, pelo carreiro de pedra que une os dois jardins relvados e mansos na sua exiguidade maçadora, o seu cabelo em flamas sobre a verdura que dura o verão inteiro e nos molha os pés de outubro a maio. Não raras vezes, em agosto, não podemos sentar-nos em grossas mantas contra a fachada sombria do edifício, e vamos acompanhando o sol em viagem, examinando compungidamente lençóis taciturnos ao dependuro. E eu observo o que me é dado observar enquanto os primeiros gansos soltam grasnidos tímidos, anunciando o outono. Fechasse os olhos por muito tempo, reconheceria as estações e os dias da semana com perfeita exatidão. É que todos os dias o real me conta histórias no silêncio que eu faço, na solidão das paredes fechadas. Cada porta encerra segredos que nenhum de nós reconhece, a não ser pela imaginação precipitada da resposta neofreudiana dos achaques dos vizinhos. Mas eles são tão fantasmagóricos - as portas fecham-se antes que pisemos os degraus que abrem para os patamares sempre tão vazios - que talvez não existam senão na minha invenção. Não os conheço nem eles me reconhecem o dom de lhes dar vida. Ingratos. Sonâmbulos e infelizes. Nem uma paixãozinha, um estremeção, vívida demonstração da sua existência.