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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Da minha janela vejo nuvens e telhados e uma árvore gigante, cuja folhagem desperta. Não vejo a rua, ou mal a vejo, estreitada pela imposição dos edifícios enfileirados como dentes amarelos, e é como se a própria casa me obrigasse a erguer a cabeça e o olhar na direção do céu. Não sei se esta orientação efetiva um convite à demanda e à expetativa, ao estabelecimento de quimeras e planificações, ou se somente me afasta do real térreo, dos corpos imanentes que assentam os pés no chão. Ainda há pouco, trazia os sacos abarrotando, o plástico retesando-se na pega, almejando roçar o chão a cada passo, encontrei o homem do galgo, sujeito entroncado e de traços obscuros, assim de quem passeia o cão antes de o apostar numa corrida, encontrei o vizinho, certamente enfastiado com a sua solidão de viúvo e com as insuficiências de um doente cardíaco, a mãe com cara de avó, empurrando o carrinho do bebé, a distribuidora do correio, na azáfama diária e taciturna da dispensação de papel, e nenhum deles, nenhum, me pareceu significante, material, objetivo. Todos vultos, de quem passa e não chegou a passar, como fantasmas que subvertem a clareza das suas aparições. E agora pergunto-me se os vi realmente, ou se a minha mente os desenhou, aguarelas diluidíssimas, enganando-me; e quem sabe eu até nem saí à rua e imaginei ter saído e, quem sabe, se for ao frigorífico, não estarão os frescos que comprei.