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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A mulher sentia-se febril, calafrios viajavam pelo seu corpo franzino, emergindo da cabeça de muitas línguas. Cada uma proferia uma história, um conto, um enredo, um poema sem rima. Cada uma falava por falar, sem encadeamento ou coesão discursiva, apenas jorrando as palavras como metáforas de um sentimento, ou como captação do real apetrechado pela beleza figurativa da palavra, criando novos mundos, dos quais ela era mera espetadora, como se estivesse dentro e fora do seu ser, dentro e fora da história, dentro e fora da sua cabeça. Contrafeita, caíu-lhe uma lágrima que, contudo, não lhe humedeceu a mão; antes a matizou de um negro de tinta nanquim, num cursivo primoroso, magistral representação do que sentia. E outra se seguiu, e mais uma, e mais outra, lágrimas que a mulher não conseguiu travar: dos olhos lhe chorava uma narrativa, não sabemos se conto ou romance ou novela, epopeia não, que já não se usa, dizem, sem que a mulher a pudesse engolir, como fazem as pessoas envergonhadas com o seu ato mais humano, prova de resiliência e não de renúncia ou prejuízo, acabando por suprimir o seu interior líquido até secar. 

E os que passavam não viam, nem queriam ver, até que a mulher levou as mãos já negras à boca, e contraindo-se o estômago, também daí lhe saíam palavras e palavras e palavras, como uma digestão por fazer, ou como Jonas, feita a reflexão. E, negras, frases inteiras, adversativas mas disjuntivas também, ou explicativas que também fazem falta, copulativas e conclusivas, de modo que era um texto refinado,eram expelidas violentamente, sem nexo, parágrafos fora do sítio, emaranhadas as provas de um pensamento fértil. E como muitos vieram ver, preocupação nula, curiosidade voyer máxima, a mulher recompôs-se, um morrão em fuga, e desapareceu entre a multidão.