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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Observo a criança. Há de cair e talvez perfurar a pele salgada, mas contenho-me, olho apenas na certeza da minha impotência. Levantar-se-á. É todo um processo a que se assiste, do lugar desabitado dos deuses. Tudo tem lugar no espaço da casa, tutelar e opressor, enquanto passo a ferro. A tia dizia dar a ferro, é uma tia já velha e enrugada, muita história contava depois de descer do autocarro. Era um tempo em que as crianças vestiam Bambola, uma marca infantil que transige com o tempo dos sonhos e das possibilidades. Era um vestido verde de algodão, com pontos debruados na roda da saia e a lisura do peitilho, ainda uma saia cuja t-shirt, três cestas de grandes ramalhetes ali pintadas, pouco se usou, e que se admirava em cima da cama,como um tesouro velho a que o nosso corpo não mais se ajusta. A primeira desilusão com o tempo, com o nosso envelhecimento, esse músculo tenso, retesado e depois ironicamente liberto nas mãos cerzidas.