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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Ver pelos meus olhos a circularidade mestra da vida e da morte, que, aliás, devia ter um nome. Dizem que é a vida, a morte pertence-lhe. Será ao contrário? Eu não sei. Não sei nada. Quando era nova, pensava que sabia, mas agora sei menos do que sabia quando, aos cinco anos, comecei a chorar compulsivamente numa loja. Ninguém me beliscara ou esbofeteara.

Ver pelos meus olhos. Além das vagas, do comentário fácil, da imediatez, do bulício. E ser corajosa o bastante para o guardar para mim: resistir à palavra, ao seu endeusamento, calá-la no vórtice da sua geração, amainando-lhe o sentido incompleto, e sentir, somente, a verdura, a frieza da luz, a agressividade de uma onda, a pacificidade de um rebanho ao sol. Cruzar-me com a turba em contramão e firmar-me sem que eles me levem, citá-los e beber-lhes as mágoas, as alegrias, o tempo que lhes resta, e caminhar, segura.

O mundo já tem poetas que bastem.