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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A palavra humano tem sido de tal forma abstratizada que se tornou uma mera aparição fantástica descarnada: resta-lhe somente um vago lastro de navio semeando rasgos, milhas e milhas afastado. Na verdade, disse ela, o humano sempre foi o contrário do que lhe atribuíram os mais zelosos defensores da sua dita significância: um simples cobarde sanguinário, invejoso e hipócrita, pronto a retificar o tempero se o veneno do fel se lhe assoma aos dentes e o vizinho lhe toca à porta. Assim sendo, a desumanização é o que nos basta: sermos límpidos e desnudados da condição de Homem, já que nunca conseguimos fazer jus ao nome. Fôssemos deuses.... mas esses, em constantes rivalidades brotadas da urgência de se engrandecer face ao outro, da injúria e da voz pérfida em cerceio. O Olimpo é uma longa citação da morte, da libido e da traição. Deus fez a mulher parir com dor e o homem pelejar pela sua descendência e, bem se sabe, cada um arreganha os dentes pela sua. Pousou a chávena de chá, de onde se erguiam fumarolas na serenidade perfumada da menta ainda esverdeando os campos.Eu levei o cigarro à boca, segurei-o entre os dedos, observei o vermelho das unhas, como embebidas em sangue de uma funda ânfora, e deixei-me afundar no divã, o acetinado amarelo repuxando sob o meu peso. Resta-nos, voltava a vida à sua voz, a mão sobre o peito alvo, desumanizar, menina, desumanizar. 

Os meus lábios entreabriram-se, ri-me, primeiro uma gargalhada baixa, num pudor seco, e depois em crescendo, lasciva, tributária dessa desumanização que se lhe enroscava na orla dos lábios como uma gato vadio fazendo cama.