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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

E agora sentava-me e fumava um cigarro na varanda. Na mesma varanda onde costumava fumá-los às escondidas, o meu vulto ocultando as formas  incertas do fumo, sempre em ascensão como um anjo desalentado. Mas então era escuro e agora dá nesta varanda um sol de janeiro aberto e seco, muito seco para o inverno, num fulgor que dá medo. O medo. Ainda ontem lia sobre ele, os pés gelando sobre a madeira, e o sol num grito sob a lâmina do vidro, uma casa fria onde tantos estudaram a econometria e a arte da sueca, e onde se contam hoje tantas histórias, tantos pareceres, tantas sentenças. Eu não sou juíza, se fosse, teria medo. É que avaliar é tão difícil e alguns mentem sempre. Na sala de espera, na insegurança do não dito da testemunha, mais um mentiroso bafejando, esvaindo-se em palavras sujas, lia sobre o medo, e era o medo que me trazia ali, o medo da injustiça, o medo da mentira, e, mesmo sentindo-o farejando-me as goelas, a mandíbula estreitando-se para a boca, foi, precisamente, a leitura sobre ele que o fez tola aparição sob meus dentes. Mastiguei-o, degluti-o, e era tão seco e insosso, desenxabido, porém, denso e maciço. O medo é como uma lasca oprimindo-nos as gengivas.  

A morte, a perda, a doença, a ausência de um cigarro na varanda. A ausência dos outros quando regressamos. Não nos iludamos. Quando se parte, nunca se regressa realmente. Talvez seja, afinal, a ausência de nós no ponto de partida. E os que ficam são, na essência, quem mais nos recorda dessa partida, que se assemelha, sempre, a uma ausência total, a uma morte antecipada, aos cacos que, ainda com pena, teimamos em varrer para o canto da sala e daí para o lixo. Gostava tanto, mas lixo. Tampa-o bem, não vá desfazer-se ainda a nossos pés. Voltar é ser outra num espaço que se corrompeu, falar outra língua, meter a chave errada na fechadura, acabamos por entrar mas a custo, alguém vem de dentro destravar a língua da porta, forçando-a com a mão, e que acabará por se fechar. Voltar é procurarmo-nos precisamente onde achamos termo-nos deixado, ecdise, vestirmo-nos de nós, de um eu que já não há nem havia quando partimos. Regressar é ainda mais difícil do que partir. 

Mas que bem que ia agora um cigarro, no silêncio e na luminosidade.