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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Como gosto das sextas-feiras! É o dia dileto para as compras! Fruta colorida e sumarenta, vegetais vitamínicos, e queijo de mil qualidades espraim-se na praça biológica. Dantes, eu também ia à praça com a minha mãe, noutro tempo e noutras paragens... E fitava, algo recesosa, os olhos imensamente abertos dos peixes escamosos deitados sobre o gelo lascado. Que histórias teriam para contar? Onde iriam, com tanta pressa, quando a rede os açaimou?

Bem, agora desse peixe aqui não há. Sigo para o supermercado.

O que mais me incomoda nas ruelas dos supermercados é o facto de elas serem desconfortavelmente exíguas, como se a obrigação do cliente fosse, qual robot, percorrer as prateleiras num sentido e num sentido único. "Oh, pá! Esqueceu-me dos cornichons... - Ui, esqueceu-se? Só acabando a rota, pagando, saindo e entrando novamente - Mas está mesmo a um passo. - Mas um passo atrás, não vê a seta desenhada no chão? Somos ordeiros ou umas bestas?" 

Outro incómodo, além de querer ultrapassar o velhinho a comparar as farináceas, e o estacionamento de carros que alguém deixou em segunda fila, portanto, no meio do corredor, é aceder aos ovos. Certamente já se depararam com a irremediavelmente custosa e exigente tarefa de deitar mão às 12 células reprodutivas não fecundadas da galinha (ah pois! assim é muito mais desagradável, não é? god damn you, vegans!!!)! É que me parece um ritual de cariz sagrado. Reparem: é estacionar junto da prateleira dos ovos e prepararmo-nos, assim com uma reflexiva inspiração zen, para, com mãos de veludo, abrir a caixa mágica de Pandora. E já se sabe que das mãos dessa primeira mulher, como dizia esse nobre Hesíodo sobre elas, nada sai de bom. Enfim, são pontos de vista. Hesíodo lá sabe da vida dele.

Ora, e se com o descerrar da caixa de Pandora se esvaem os bens eternos, também com a simples abertura de uma caixa de ovos, de modo a que a operação deve ser levada a cabo com o zelo próprio. Segue-se, pois, a verificação cautelosa: se tem penas, não vá ter sido criado em laboratório, como algumas empresas -  numa antecipação da realidade que um tal de Aldous Huxley criou e nos fez pensar (ou não, afinal) -, supõem que deva ser a fertilização, se é suficientemente grande, "que os malandros estão sempre a enganar-nos com o tamanho", se são de galinhas poedeiras livres, ou das que vivem engaioladas, se são biológicos, se são mais ou menos biológicos, se são criadas no solo, se têm ómega 3, se são de marca branca ou não, se são S, M, L ou XL, se estão partidos, se foram rachados, se falta algum, se estão mal lavados, se não foram lavados, se são "tão esbranquiçados!", se são demasiados torrados, se são pálidos. Enfim: há uma infinidade de critérios para a sumptuosa escolha. Se se vão cozer. Se se vão estrelar. Se é para o bolo de anos. Se é para o souflé... 

E eu, enquanto aguardo respeitosamente pelo fim do ritual, deixo-me refletir: e se as pessoas pusessem na escolha de um candidato político os mesmos olhos analíticos que voltam para os ovos? Se é biológico, se foi criado ao ar livre, se está rachado, se lhe escorre um líquido amarelado pela casca, ou se é um ovo decente para a omolete? E, dado isto, rio-me, abro a caixa, tiro-lhes as medidas, e pouso-os com o cuidado de uma mãe no cesto das compras. 

 

Vou-me.

 

 

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