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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

E que sentido tem se eu me puser agora a escrever sobre o que não tem? -- amor, vida, guerra, pão e água, o desapego, a minha falta de serventia --  se depois escurece? É preciso alimentar os que resistem, parecer firme e educada, sã de cabeça, umbria só de voz, e recomeçar, todas as manhãs, ainda que certa das metades que me povoam. 

E nunca esclarecer este encosto, se sou eu ou a minha incapacidade, a minha hostilidade a mim mesma, ao que me habita desabitando, esse lugar de autoflagelação e autossabotagem, loucura talvez, atestada pela medicina, há neurónios que não se acendem ou se incendeiam na perfeita comunhão da mania. E repara: os nódulos da madeira nos teus dedos fibrosos, como se desfazentes, a verborragia, a compulsividade do choro, o cuspo entre os dentes caindo, a incompletude dos textos armazenando-se sobre a mesa, o cansaço sem sentido, o medo da abertura da porta, a ideação. E a consciência madura do período de enlouquecimento, tendo mão nele, segurando-o, até que se aniquila. 

Regresso a mim, e fica, no entanto, a dor de cabeça zunindo, a gargalhada entredentes dos demais, a ridicularização, a fama de leviandade.