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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Aterra-me o arrepio frio que sinto quando, de madrugada, deambulo por entre estas paredes que são outras e as mesmas em simultâneo, paredes gastas, antigas, de palacete macambúzio, e esta chuva miudinha que ouço lá fora - sonharei?- me atravessa os sentidos, cortando os dedos gélidos, a face escorreita e fantasmagórica que me olha de soslaio da porta envidraçada, o convite enviesado, o sorriso ambíguo, o queixo firme, mas esta não sou, apenas o retrato do fluxo do pensamento, a abundância de palavras entrecruzadas, muitos sentidos em bruto, delapidando-se, autónomos e fugidios, as flores desgastando-se policromaticamente, o vento gasto, a porta rangendo, o gato ougando sob a telha transparente, e as palavras agudas lançando-se, uma gargalhada maníaca, a impressão desfalecida de um toque, de uma presença superior e do reino animal. O que trago são pedras, meu senhor, não flores ou pão, rochas maciças nos bolsos fundos da alma, densidades curvas ou obstusas, puxando-me para baixo, para o leito despido do rio, fluxo audicioso e escarninho, e depois a palavra, deslizando como um peixe ascendente, o sol ardendo contra os olhos abertos ante a limpidez da água. Se a letra assenta, então o pensamento articula.