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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Ela perguntou: Tem dias que detesto toda a gente. Isso faz de mim uma pessoa má? Ela respondeu: Não necessariamente, o que te incomoda? Bem sabes, esta necessidade de me saturar de sentidos que o real não nos dá, esse salto para o nada, com a ponta dos dedos como as bailarinas. A melhor imagem para a ficção é a de uma bailarina em pleno voo, o corpo lançado com a virilidade e poder da partida, e a estagnação no ar elevada à eternidade. A ficção é esse momento de lançamento pré-queda, essa imersão num glóbulo espácio-temporal que nos desterra do imediato e do supérfluo. Eu quero lá saber da sopa ou do bife por temperar. E as pessoas, que têm as pessoas? Ora, as pessoas têm relógios e Stundenplanen, essa fragilidade palpável que nos esgota e envelhece, esse corropio de insensibilidades e imposições irrisórias; não me interessa nada. Quero o salto e o vagar dos olhos fechados sobre a ideia, essa execução disciplinada sem amarra. O calado cerrar de dentes e o que se lhe segue. A ficção é toda uma arte do corpo e da sua, espera, que tocam à porta, da sua quietude.