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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Vocês talvez não saibam, mas eu vou dizer-vos da dificuldade de escrever, olhando uma parede branca e oca, entrecortada por uma nesga de luz macilenta e em descenso de manhã à noite - mal nasce o dia, está já escurecendo! -, e da influência da luz na narrativa.  

Bem, eu gostaria de dizer-vos sobre o efeito da claridade, mas como está escuro, tenho dificuldade em articular os sons e chamar-lhes palavras, que, às vezes, antes de as escrever, digo-as como se as ditasse, fazendo as vezes de musa, que é celeste e espiritual a sua aparição no modus operandi dos mestres. 

E depois, vou dormir, para ter insónias e certificar-me da escuridão, mesmo que possa tatear com as pupilas a mesinha de cabeceira, a cadeira de verga, a solidez da barra da cama e a suavidade do tapete ao fundo da mesma. Mas minto, eu nem tenho um tapete no fundo da cama, é que eu gosto de andar liberta, e bem se sabe que os tapetes travam os passos a quem passa, quanto mais não seja, na hora de os sacudir violentamente, recebendo de volta as migalhas da criança e o cotão cuja origem nos surpreende.

Portanto, escrever à sombra é como viver em insónia; o sentido não nos é claro a não ser que deixemos de prestar atenção e durmamos sem nos esforçarmos por isso.