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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Eu só trabalho de brincadeira, fazer a cama não cansa, nem esfregar a panela, a loiça quase se lava sozinha, em ambiente devidamente assético, e a roupa seca na curva do vento. Eu só trabalho contra o tempo, o que passa e eu cosendo, agulha lista em pele fina, como quem descose, como a outra, listando o arroz e a cebola, o jantar e o apetrecho da minha excomunhão, eu só trabalho contra o tempo que passa sem que a letra venha e poise, contra a hora de jantar e o chão laminado. Eu só trabalho de brincadeira, lavar os copos não custa nada, nem o chão da cozinha, a loiça pura dos banhos, a límpida face dos espelhos. Eu só trabalho contra o tempo, e há de vir a morte e sentar-se na cozinha, descalçar os pés, perguntar o que fizeste de jantar, alho não costumo usar, queixar-se-á, e agora, desculpa, temos de ir, nem que a palavra te venha à boca, guarda-a para depois, para depois era agora, a roupa está passada, mas é a hora, guarda-a para depois, eu também só trabalho por brincadeira.