Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Há corações pendendo da janela da frente, cabides rosa desabitados, a janela entreaberta, o limiar do amor à descoberta e os treze graus desta manhã soturna vigiando-nos. Há corações pendentes à janela e se eu pudesse, ao menos, mostrar-vos como estremecem esses corações, mas a palavra perdeu-se e não sei agora regatá-la desse ponto sem retorno. O que eu dava para registar num poema vernacular essa aparição dos corações pendendo da janela da frente!

Terá que vos bastar essa descrição tosca: 

há corações pendendo da janela da frente

e neles um mundo que não se gasta

para contemplar

é preciso submetê-lo à raíz das coisas simples

e ser capaz de anunciar

que há corações pendentes à janela!

Se eu soubesse fotografar

e fazê-lo com mestria, veríeis,

mais do que cabides,

e do que palavras mal articuladas,

esses corações pendendo da janela.

Da frente. 

Porque, na realidade, um coração está sempre à janela, esse lugar de transgressão, violência ou desamor, tanto se dá como se recolhe. E mais não há como dizê-lo sem afirmá-lo como uma criança: 

estão corações à janela, há corações na janela da frente.