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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Mas a vida aqui é tão triste, o sol nem se vê, os pássaros vogando sempre sob a árdua tábua da nuvem, os telhados enegrecidos, o corpo apagando-se num sopro mínimo. Mas a vida aqui é quase inexistente, nem barulho faz, nem na lágrima que engulo porque ma dizem sonora, incoerente, testemunho do nada que me assalta. Mas a vida aqui é tão triste, cheia de silêncios humanos, silvares de bicho que come e dorme, nada mais prevê. Bem se sabe que uma mulher sem sonhos é uma mulher morta. Que o futuro sem dias é um tumor. Que viver pelos outros é ter já desistido de nós. Presa por uma nesga, nem me bate o coração, silencia-te, que o ruído da cava está a mais. Corpo que arrefece, à medida que o tempo me enlouquece. Mas estar louco é tão bom, é sair da margem e adentrar-me, sem medo de submergir, aceitar que a vida é breve e que nada dela tem o peso que nós resolvemos sentir. Lá fora, bem no alto, os pássaros voam, mas os pássaros são estúpidos porque nunca se deixam cair, nem atravessam o limite do cinza. E agora, fazia um poema, mas nem a palavra chega, nem a mão deixa. A literatura é sempre a réstia de alguma coisa maior. Quanto mais fraca, pior a literatura. Sobras que ficam no caminho como um cão lazarado de fome.