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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

É engraçado que fales de árvores, do desconhecimento dos seus nomes, de uma quinta em cuja terra abriste uma cova e depois a fechaste, já alimentícia e fecunda, para felicitares o aniversário do teu nascimento com uma árvore de nome risível. É engraçado que fales dos nomes das coisas, aquele que não se profere, não porque se desconheça a sua designação - o que não falta são livros de botânica -, mas porque o verdadeiro nome vai além da articulação do som e, sim, se firma e nasce do sentimento que se lhe prende ao fecharmos os olhos. Na verdade, as flores têm dois nomes: o que articulamos oralmente, não raras vezes desconhecido, no secretismo das grandes bibliotecas, e o que conhecemos interiormente, no miolo do corpo e da mente, antes da fala, antes do som, e antes ainda da lógica obtusa do pensamento. E a dificuldade é reconhecer a flor quando a dizem margarida, quando a dizem acácia, se antes do olhar ela é a mesma, no pé alto e vaidoso, no aroma fixo, na doçura ou no amargor, na maciez que evitamos; elas colhem um nome antes da semente. É o nome que lhe damos consoante o que elas nos segredam. 

Eu lembro-me do esplendor albugíneo das frésias e das tulipas entrecortadas pelo frescor acalmante do verde do ramo de uma noiva, do narciso e da vaidade do que nas águas se espelha, das rosas da coroa que a tua família enviou à minha quando a tia morreu. Por isso, são elas, as flores e a tia, que nos terão dito palavras semelhantes, e por isso tão apartadas quanto os quilómetros que nos separam, não fôssemos nós diversos, que nos unem.