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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

O outro nada mais tinha do que sonhos. E eu sento-me aqui cristalizada na mesma posição, certa de nada, antevendo a luz pelo recorte estreito do postigo. O sol nasce às sete e vinte e dois e põe-se às sete e vinte e cinco, mas daqui a dois dias, o sol nascerá às sete e vinte e quatro e por-se-á às sete e vinte e dois, e essa diferença mínima bastará para me saber em oclusão. Calha bem, que preciso de dormir. Às vezes, cintilam vozes nas proximidades, ah, mas eu estou sempre sozinha. Não há quem nos acompanhe, senão na procissão do funeral, e, mesmo então, teremos partido sós. E pergunto-me: quem virá ao meu enterro, certa de que também aí estarei irremediavelmente só. Se choverá, se fará sol e as aves desentorpecerão as asas sobre a terra revolta. As ervas crescerão, todos nos teremos olvidado de mim, dos outros, es ervas daninhas crescerão, as rosas podadas junto aos muros, a hera fazendo sombra. 

O outro tinha razão, acalentam-nos os sonhos, mesmo quando resistimos a tantos.