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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Percebesse eu russo e estaria como que sentada à mesa dos vizinhos da frente, sorvendo-lhe dos pratos os aromas que exalam em sentido ascendente, e os sabores dissolvendo-se sob a língua. Mas resta-me, assim, a simulação de uma proximidade e casual intimidade oca, de janela a janela, a minha tarde devassada pelos olhares furtivos que em nada se deslumbram dada a apatia do cenário: a mesa disposta ao centro da abertura, as três laranjas enrugadas no seio da taça bojuda ligeiramente chegada para a esquerda, o computador ligado e o cabo deitado sobre a mesa como um morto, inerte e negro, e uma mulherzinha sentada ora de frente, ora de lado, na tentativa enganosa de mudar de horizonte, sempre balizado no que podemos referenciar como real, e, por essa penosa razão, aberto como uma planície alentejana. Podem, por vezes, assistir ao eficaz momento de criação de algumas linhas, aos diálogos altos, enquanto o ferro queima a pele sem que faça doer, ensimesmada que me encontro nesse mundo que não chega a recriar-se depois, porque as palavras já não são as mesmas, nem tão pouco o sentido lhes aufere lógica. 

Bem, mas este não era o tema, o desconsolo de existir em solidão, mesmo que se acumulem as vozes dispersas, por todas serem, afinal, a mesma e a mais familiar delas. O que me pareceu de importância no plano de concretização a médio-prazo prende-se com a delimitação formal da obra. Há que começar, especialmente nos dias desacordados, a estabelecer metas, além das diárias: escrever uma ode enquanto faço a lista de compras, descrever o ambiente enquanto estico o lençol, e decidir-me face à tenebrosa formalidade teórica da presença do narrador enquanto descasco a batata para o guisado. Isto sim, é um plano à altura de uma verdadeira profissional. 

Portanto, um tratado, tendo em conta que se cose um tema transversal em dois cadernos, parece-se uma ideia florescente, e, já que foi fulminante, será, certamente, de valor. Escrever romances não saberei, que sei eu dos outros senão o que me vai na cabeça?, pelo que um escrito curto mas razoável, acompanhado de mais dois, com as devidas alterações sob o ponto de vista, a focalização, e chamar-lhe-emos conto ou novela?, era excusado este rosário e crucifixão sobre a forma: é só um texto, nem narrativa, nem talvez poesia, só um emaranhado de temas cujo formato não limita o sentido. Mas divago, novamente. O que eu sei, afinal, é divagar. Este meu diário, em que narrador e personagem e autor se ficcionam é a minha praia. Há autores que afirmam não ter imaginação, talvez também a mim me falhe essa criatividade, pelo que me resta esgueirar-me por outra porta, questionando os limites, testando definições, discutindo-lhes as certezas, as imposições prescritoras. Neste exercício de hoje, nem conto, nem parábola, nem novela, só autoficção, só personagem ingénua e ridícula, qual palhaço rindo de si mesmo. 

Assim sendo, temos um tratado.