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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Verão é tempo seco. Seco o dia, seca a noite, seca a imaginação. Tudo em declínio sob a ardência. Ironia e contradição, já que a melhor prosa, ou a mais viçosa, pujante, tende a nascer do tumulto, de uma fornalha interior periódica, impetuosa como um vucão. A gente ajeita daqui e dali, passa-lhe uma escova e ela esbelta-se. 

Mas no verão tudo é atraso, tudo é acalmia, valha-nos o frescor marítimo da verdura, tudo é lentidão, enquanto o sol faz estalar as telhas já negras e as de cor de fogo crepitam. Bem se procura uma ideia, uma teia em que sejamos aranhinha, mas nem teia, nem Teseu, só meia dúzia de palavras dúbias, enredo fraco, sentimentos flutuantes, caraterização supérflua.

É bom tempo para versos bucólicos; talvez açaimando-lhe a frescura da erva nasça da calentura da palha seca, requeimada, um Dom Quixote a braços com a solidez do supérfluo. Ou do ardência do alcatrão nasça um romance caótico, de um casal a braços com a sua relação, uma traição e golpes de navalha na carne tenra, como nas óperas antigas, sempre a castigar a mulher, inoportuna Eva. Talvez seja hora de golpear um José ou um Otelo, só para ver o sangue jorrar vermelho, um acesso intermitente de insânia extravagante, questionar se afinal é o homem quem ensandece. E a serpente é Iago, a bifidez dos gestos, a penumbra dos sentidos. Desdémona endemoninhada, abrindo gargantas, poças de sangue, Iago, Emília, e o infeliz Otelo. Ninguém compreenderia a ironia, a palmatória, e Eva seria ofídia e falsa como desde a abertura do jarro bojudo.