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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Porra. Hoje dei por mim a abanar uma revista feito abanico sobre as pedras rijas e negras deitadas na fundura de uma bacia que mais se assemelha a uma, azul e pintalgada de preto, que a minha tia Dolores enchia de água na torneira da curva e trazia aos solavancos para a mesa de mármore, onde se banhava aos 16 anos... É que a gente só não sabe para onde vai se não sabe de onde veio. 

Bem, mas nem as pedras enegrecidas me disseram novidades, malfadadas runas mudas e empedernidas, pois que elas são de origem vegetal e de pedra só a forma, nem a chama desenhou premonições quando a chuva pingou finalmente sobre elas e eu as soprava e teimosamente as fazia luzir. O feijão lá foi cozendo lentamente e quando dou por mim, a carne já cheira. Mesa posta e farta, com a delicadeza de um agrado e a violência da ressurreição da brasa, abandonada ao tilintar vão dos meus talheres, os outros já mortos sobre os restos, e as cadeiras vazias. Vítima da sorte, que é dia da Mãe e as minhas não estão, mãe que sou, acabo o almoço como as brasas lá fora, extinguindo-se à chuva.