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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Tem vezes que escrevo na mesa da cozinha, só para estar mais próxima do fogão, e se ele fosse de chama, quantos escritos não queimaria, na certeza da destruição do erro, da reformulação da palavra, vezes sem fim, como a máquina da roupa, som de fundo, como que mergulhando-me nessa centrifugação rítimica do pensamento, dando nós nas mangas das camisas, sulcando o espírito, uma sova de água fervente e o tecido amargurado de entalhes fundos, deslaçados a custo, depois, sobre a tábua de passar, os desenhos já gastos, nem se percebe se uma ave ou um pássaro, a ave sempre foi mais poética, o pássaro é só uma coisa com asas vazando-nos os olhos postos no céu azul.

Já experimentei no quarto dos arrumos, mas tem pouca luz e espirro com o pó das coisas velhas que guardamos com a certeza de que as não usaremos novamente, empilhando irrealizações, imperfetibilidades, memórias aos fiapos, meias palavras desgastadas e em surdina, botas de neve ao pé da praia, cestos de piquenique de jardins que ficaram por dizer, vazados os sonhos, vazadas as coisas de sentido, de serventia. É como as palavras e o uso que lhe damos, gaivota perde as asas no seu afã de voar nesta casa fechada, sem espaço para estas coisas de sabotagem do eu, do sentido, do lugar certo do coração e da mão.