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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Hoje sonhei que cegava e que um cão de extraordinárias proporções me seguia, ao qual atirava pauzinhos que, tateados no chão, lhe serviam de entretém. Tudo era branco, quando nós acreditamos que a cegueira é a negritude travando-nos a vista. Pois a minha era branca, leitosa, ou de tule feita. O cão rosnava e mostrava os dentes, afinal eu via-os, grandes e solenes no aviso, eu, mas eu, a que sonhava, não eu, a que vivia o sonho. Há, portanto, uma ligeira interposição entre o eu que vive e o eu que que se vê viver, ainda que um deles esteja, aparentemente, segundo diz o sonho, retido na cegueira. E, mesmo sabendo sonhando-me, despertei cansada e, ditosa de ver, infeliz por não me saber cega e, ainda assim, capaz de ver.