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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Venha viva se for santa

 

Seis dias, e ninguém a vira. No liceu, a secretária rasa, em casa, a cama feita. Raras aparas de lápis roçagando o tampo já carcomido, e as pontas do lençol varrendo o chão. Não se lhe conheciam namorados, ligações políticas, interesses incomuns, estados de saúde incertos. Ana desvanecera-se.

A polícia veio, rondou, os amigos distribuíram fotografias, a vila partilhou o sucedido, a bem da menina, coitadinha.

E quando a trombeta finalmente anunciou que Ana vivia ainda, de saúde, e de paradeiro descoberto, o povo, batidas as palmas, foi rosnando aqui e ali, que desplante!, preocupar desta forma as pessoas para aparecer num país distante, assim, sem água vai, o jornal também não explica, deve haver é gato… Caía-lhe bem, porventura, um crimezinho, um 'romancete' que tivesse terminado no fio estridente da navalha, numa valeta, um pai alcoólico respingando violências, ou uma mãe descasada e amancebada declinando-se-lhe já o juízo, uma gravidez de um homem casado e o fim tenebroso que dariam à criança. Mas Ana nem tugiu nem mugiu, e o povo ladrou até encontrar nova pobrezinha, antecipando-lhe a sorte maldita com as duas mãos sobre o peito.