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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Pessimista? Eu?, que rezo todos os dias a santinhos 

de pé de barro ou quebrado?

Antes me diga cética, jawohl!, 

com prazer de noviça enclausurada

por amor a Essoutro.

Guardo-me para o bem

e espero sempre o mal,

que é mais fácil pelejar

quando temos a lâmina

à mão. 

Não se iluda,

eu preparo-me para a 

desilusão

como sargento para a

guerra.

Mas da peleja,

ainda que partidos,

ainda alguns voltam vivos,

da desilusão

é que não. 

 

Tudo nos ultrapassa,

o cartão de crédito do rent a car, o detergente novo da máquina de lavar,

o fascismo e a misoginia: não é coisa de preto nem de mulher folgada a democracia, 

bolçou, ignaro,

os corações perros, as pernas mancas, a desilusão, meniscos feros e fígados parcos,

a morte,

e até a vida,

que não é arável nem dizível, 

pranto gasto e coercível.

 

 

Hoje o diabo acordou feliz, e eu tenho acordado sempre tão pesada que se me sonega a vontade de lançar o pé. Mas a verdade é que o que tem por aí de mafarrico é coisa nossa, de homi e mulhê, e talvez baste isso para retomar a fé. 

O mundo é uma bola e quem anda nele é que se amola. Foi a minha avó quem disse. Sorriu-se, vi-lhe o trejeito grácil ao telefone. Nem tudo lhe é dor, ela é da lisura nobre da comédia trágica. Envelhece muito pouco acaciana, na pitada sibilar com que relativiza o mundo. Então, como estás? Muito candorça, mas a língua ainda não dói. Enche-me o coração no recém-descoberto desprezo viperino dos males pequeninos do mundo, dela mesma, despede-se com grande elevação do que só soube dar-lhe pouco. Tem fé por superstição, que, enfim, terei herdado, o rito que não cura, mas situa, ramos de oliveira benzidos no domingo de ramos contra as tonas das achas que ainda me estalam, pinheiro antes de carvalho, e Sta Bárbara q.b., e era poético que findasse a rir-se, que é típico das grandes mulheres a quem o mundo, abalando, não derreou. 

Ó Sara, que te queria cantar alta, mas a voz recusa rouca e roufenha o trato da palavra,

nem fúria, nem belicosa canora tuba, 

e Tu que a mereces,

e eu calada. 

Nós comovemo-nos com pouco e são os poucos que nos prendem à vida. Estava escrevinhando e ouvi-lhe a gargalhada sadia e dobrada, a água que adivinho fresca cantando no pavimento, e por hoje há de bastar-me essa puerilidade quase pastoril como fundo de poema mental. 

Lavei os tapetes, escorreu para o chão a água excessiva. Outros excessos. Pele, cutícula, cabelo, migalhas de pão e cadáveres de melgas, sangue talvez. Sempre que os estendo, e estendo-os regularmente, vai-se distendendo o músculo, a prega da pele, e morrendo o corpo na diplomática higienização da casa. Depois secam ao sol, como invertebrados, de sangue frio, dele desafetos, e nem uma malha solta de Penélope, granjeando tempo, perenes e impolutos, os tapetes ao sol. 

A romã apodreceu

de dentro para fora

sobre o centro de mesa engalanada

de viço.

Não mais 

o sangue fero

nem o maná leitoso

escorrendo adstringente

ante o alvor da boca

os dentes contra a língua 

em arredio recuo

lábios cerrados

contra a firmeza.

Secou

avelada

contra o cristal

que a ostentava

perene velida.

E agora é um

fruto agreste

bravio no trato

e duro na expressão

que não comove

nem assedia

sáfaro pinhal

em turfa

onde nem vem

o relento da maresia.

Anda, vem, deita-te aqui entre os meus braços, não me recuses,

preciso de fazer as pazes contigo,

maceras-me e eu anulo-te,

mais um corte e estamos desavindas,

por isso eu cedo, como sempre o fiz, acintosa, mas já obediente,

tu, tenebrosa nesse emancipado orgulho de rainha

ajoelho-me, massajo-te os pés, 

alvoreces e engalanas-te,

não me martirizes mais,

rogo-te,

ainda que te insulte interiormente,

certa da minha apostasia,

regressa à pena e diz-te, 

eu não me queixo mais.