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A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

A penitência de uma dona de casa que acha que tem um encosto

Diarística. Autoficção. Versos.

Anda, vem, deita-te aqui entre os meus braços, não me recuses,

preciso de fazer as pazes contigo,

maceras-me e eu anulo-te,

mais um corte e estamos desavindas,

por isso eu cedo, como sempre o fiz, acintosa, mas já obediente,

tu, tenebrosa nesse emancipado orgulho de rainha

ajoelho-me, massajo-te os pés, 

alvoreces e engalanas-te,

não me martirizes mais,

rogo-te,

ainda que te insulte interiormente,

certa da minha apostasia,

regressa à pena e diz-te, 

eu não me queixo mais. 

 

Daqui

não quero 

nada

salvo,

talvez,

quietude

entre o que sou

e o que supus

poder vir a ser.

 

 

Quando as persianas sobem

parece um filme do Dolan

as lâminas em ascendência

a orquestra de um filme

a gargalhada da criança de permeio

no que vejo 

no que ouço

é só um fim de tarde de domingo

as rosas engalanadas pelo branco do céu contra o vidro

e setas e setas de aves em formação

vogando para norte

e o meu coração ensimesmado

com a vida

com a estranheza da sua uniforme insignificação 

Há de haver uma solução para tudo, nem que seja a morte,

eficaz, mansinha, sedutora, um sulco breve 

e água de rosas 

ao sol, a janela aberta para a luz que não chegou a aquecer.

Gosto de escrever à mão, mas, depois, volvidos os dias e a neblina, é raro perceber a caligrafia. Talvez faça sentido, que nem tudo é de esquadrinhar, nem nós.Serei eu a escrever torto para dar a falsa sensação de mistério, adensando o nada que me parece irresoluto, ou sê-lo-ei em potência? Má caligrafia, talvez, apenas e só - nem sempre se deve justificações psicanalíticas ao real - a pressa de acompanhar o pensamento?

Se as pessoas soubessem que a minha vida se passa toda por dentro destas linhas,

não as liam em diagonal negligência, enquanto dardejam com o dedo 

grosso de béchamel o ecrã do telemóvel no intervalo do almoço.

Se as pessoas soubessem com que violência ela se recolhe nos ansiados alvores

da manhã ainda opaca, não as preteriam com tão amoroso desmazelo.

Eu sei que as palavras minguam em lavores, não se fazem epifânicas,

mas se as pessoas soubessem que a minha vida é de pastoreio sobre vulcões

oh, Poeta!,

Deixavam-se, por um momento, orgânicas, suspensas em sincelo,

pensando nelas

e naquilo que passa, indiferente à vida

e à graça. 

 

 

 

 

 

 

Ele não sabe o significado de mefistofélico e ainda bem,

significa que traz o coração puro e aquiescente.

Ainda assim, defini-lo com base em vocábulos que ele desconhece 

é como não resistir à indecência de sujar o que está limpo

só para ver a reação de quem limpou. 

A aquiescência por extenso não faz dele 

menos ou mais compadecido,

nem os bigodes mergulhados no escuro deste quase poema 

o desfiguram. 

No que conta, eu bem posso devorar-lhe o peito

com as leis da relação sinonímica

sem que ele o sinta sangrar. 

Eles dizem que a realidade não está nas páginas dos livros.

Onde está, senão lá?

Contra a exímia brancura, o sangue

Contra a pudícia, o sexo

Contra a mudez, DE LE TRE AR.

Ainda assim, gosto desse cinismo.

Fazer de conta que não se gosta

É meio caminho andado para gostar. 

 

 

Tenho um relógio que se ri de mim em surdina como um anjo de morte anunciando-a. Ainda assim, prendo-o ao pulso como se fosse adversária honrada. Não me acanho na minha pequenez de mulher predestinada à dissolução e obedeço-lhe, insultando-lhe os movimentos. A resistência é uma parábola da nossa submissão.  

Os gansos rasaram a janela e embeberam-se nos meus olhos, em seta esguia pelo âmbar, e eu mantenho-os na sua rota, delicados e assertivos, longos pescoços declinando a estagnação. O lugar do ir é sempre o bom lugar.