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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

A idiota ortou-me o C – outras ortaram já, e ortar-se diz que era uns aos outros – no artão de cidadão – ouça, isto cidadói-me!, que sou cidadoa, e ela não percebeu a piada sexual – e faz sentido. A balconeta iluminou-me como os cruzados ao perros infiéis, esclareceu-me gentilmente como guardar as ompras, rapidamente como convém ao sistema, diligentemente, como convém à imagologia, Ja, whatever, feri eu, e took my Zeit mit meiner kontaktlose Bezahlfunktion girogo Card, a nacionalidade foi a pior coisa que inventaram. A obediência é a primeira declinação da condescendência. A nacionalidade, a segunda. Rosa, rosae, rosarum-me. Duas grandiosas mo[n]stras de inteligência oatando. Ele há gente talhada para obedecer e eu sempre fui insubmissa pe[r]d/tiz e perguntona. A riatividade é omovente pelo que de parca influi. Mas a idiota onsolada de raízes bacalhusas ortou-me o C, fez-me mim em falta e localizou-me, Ortando. Agora sou só com L, de lugar lá. Où? Dia. E vamos fazer aquilo dos dedos, também agregou. Eu tive pensamentos pecaminosos. Onfesso. Mas era só estupidez. Outro virá e me omerá a seguinte e assim sucessivamente até chegar ao ada que já sou, mas com rótulo. E fui pela Severin, eles eram tantos e eu em mim, quando queria estar neles, cansada de me aturar, esferas lançadas ao ar, chocantes aqui, e ali revolventes, milhões de mundos e um prato que nos sirva de nação no século XXI. Em asa ortam-me, fora, ortam-me, e eu declaro: ou me orto eu ou ninguém orta mais nada! 

Nada de novo.

A vizinha de baixo ainda vai às compras à quinta. O da frente ainda se penteia ao espelho pelas dez. O céu não muda desde a última estação. 

 

M

minha gaguez é como  

como

uma cegueira

(e como, no brio o breu,

vou me comendo)

 

arde, sem que eu veja onde

calcina, sem que saiba o quê

(o quê?)

 

o labirinto perdeu portas

e o palácio amalgamou-se

(a mal

[g]amou-se)

 

nem fio, nem monstro

nem espada de cavaleiro

 

tropeço e gaguejo-

-me.

Mariana, que se me olvidavas!

Não és tu como a primeira,

enamorada do farsante afrancesado,

aguardava,

nem como a  segunda,

filha de filiação enviesada

que mãe feliz é mãe castrada,

mas tu, nem espera, nem acidente de jornada

 de quem és,

chegas até onde for a madrugada. 

E até posso ser injusta

bela Marianinha alada,

mas a fama faz o monge

do hábito pela calada. 

 

 

 

Não fales mais que te cansas, quedei-me mouca e também desisti de me dizer. Que adianta a boca se a mão desmaia? Quem se discursa, costura-se e eu já perdi as linhas e engoli as agulhas. A largura do janelo basta à miudeza dos meus olhos e aos dedos enclausurados. Talvez seque e evapore como os lagos abnegados do verão. Como esta flor decaindo contra o céu. Que adianta a seiva se a palavra falha?

Ele há homens

 

Ele há homens,

ele há homens que 

e ele há homens que não.

Ele há homens que sim,

ele há homens que cão.

 

-- Nem todos 

-- Nem todas são mortas 

(vão morrendo)

-- Nem todos

-- Nem todas comem

(vão comendo)

-- Nem todos 

-- Nem todas calam

(vão calando)

-- Nem todos

-- Nem todas. Nem todas. Nem nenhuma.