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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Quero e posso! Ou talvez não.

Bem, isto de me dizerem que impera a igualdade entre os sexos é como aclamarem que o racismo está ultrapassado! Perante o meu risinho sardónico, que, compreenda-se, é um tique nervoso diante da falta de deferência relativamente ao assunto, às vezes precedido de um arrepio convicto ou de um encrespamento, os arguentes da causa da igualdade vão sorvendo do baú histórico as enormes melhorias sociais realizadas nas últimas décadas. Anuo, para depois questionar, partindo dessa proclamação da suposta igualdade, aferida com base na liberdade de escolha: as consequências também o são para os dois sexos?

Observem, os senhores: O Mário é homem. O Mário trabalha. O Mário vai ser pai. O Mário anuncia no trabalho:

- Vou ser pai! - é o rebuliço! Num trople, todos se agigantam, parabenizando o Mário. Faz-se logo um jantar e uma festa rija, com direito a champagne!

Olhemos para a outra metade do projeto: A Maria é mulher. A Maria trabalha. A Maria vai ser mãe. A Maria quer anunciar no trabalho. A Maria conta à colega mais próxima. A amiga da Maria felicita-a, olhando-a, todavia, como se se despedisse já. A Maria expõe a situação ao chefe, como se tratasse de um delito, assim um "Tenho uma mancha no cadastro". O chefe reúne com a administração e a Maria é gentilmente dispensada ao fim dos quatro meses de licença, se não trabalhar a recibos verdes, que é outra maravilhosa invenção destes nossos tempos democráticos e assaz evoluídos. 

Certamente que a cena é caricatural, mas não anda longe da verdade. Nem todos os casos são o caso. Contudo, basta um para que a igualdade não signifique o mesmo nos nossos dicionários da vida. É que ela vive-se! 

Portanto, não se trata de reclamar que as mulheres necessitam de cuidados especiais, mas que as mulheres devem ser compreendidas na sua totalidade. Aqueles que defendem que a igualdade de géneros é já uma constante realidade fazem-no recorrendo essencialmente à alegação que a população feminina já pode escolher, tem livre arbítrio, portanto, o que constitui uma enorme alteração face ao século XX, rematando a história de um pseudofeminismo revivalista e saudosista, velho e revelho, na sua perspetiva. Mas o caminho não chegou ao fim. Nem por sombras. E se desviarmos os olhos do comezinho, então, é que vemos que nesta barcaça que é a humanidade, boiamos todos num charco.

Liberdade e igualdade de género. No papel e na escola são bonitos. Na tela da realidade atual, porém, é que eles vão enegrecendo. Uma mulher livre não é apenas aquela a quem é assentido que escolha como os homens. É a que pode viver depois da esolha feita. Essa é que é a liberdade: poder escolher sem ser punida. 

 

 

Dos ovos e da política

Como gosto das sextas-feiras! É o dia dileto para as compras! Fruta colorida e sumarenta, vegetais vitamínicos, e queijo de mil qualidades espraim-se na praça biológica. Dantes, eu também ia à praça com a minha mãe, noutro tempo e noutras paragens... E fitava, algo recesosa, os olhos imensamente abertos dos peixes escamosos deitados sobre o gelo lascado. Que histórias teriam para contar? Onde iriam, com tanta pressa, quando a rede os açaimou?

Bem, agora desse peixe aqui não há. Sigo para o supermercado.

O que mais me incomoda nas ruelas dos supermercados é o facto de elas serem desconfortavelmente exíguas, como se a obrigação do cliente fosse, qual robot, percorrer as prateleiras num sentido e num sentido único. "Oh, pá! Esqueceu-me dos cornichons... - Ui, esqueceu-se? Só acabando a rota, pagando, saindo e entrando novamente - Mas está mesmo a um passo. - Mas um passo atrás, não vê a seta desenhada no chão? Somos ordeiros ou umas bestas?" 

Outro incómodo, além de querer ultrapassar o velhinho a comparar as farináceas, e o estacionamento de carros que alguém deixou em segunda fila, portanto, no meio do corredor, é aceder aos ovos. Certamente já se depararam com a irremediavelmente custosa e exigente tarefa de deitar mão às 12 células reprodutivas não fecundadas da galinha (ah pois! assim é muito mais desagradável, não é? god damn you, vegans!!!)! É que me parece um ritual de cariz sagrado. Reparem: é estacionar junto da prateleira dos ovos e prepararmo-nos, assim com uma reflexiva inspiração zen, para, com mãos de veludo, abrir a caixa mágica de Pandora. E já se sabe que das mãos dessa primeira mulher, como dizia esse nobre Hesíodo sobre elas, nada sai de bom. Enfim, são pontos de vista. Hesíodo lá sabe da vida dele.

Ora, e se com o descerrar da caixa de Pandora se esvaem os bens eternos, também com a simples abertura de uma caixa de ovos, de modo a que a operação deve ser levada a cabo com o zelo próprio. Segue-se, pois, a verificação cautelosa: se tem penas, não vá ter sido criado em laboratório, como algumas empresas -  numa antecipação da realidade que um tal de Aldous Huxley criou e nos fez pensar (ou não, afinal) -, supõem que deva ser a fertilização, se é suficientemente grande, "que os malandros estão sempre a enganar-nos com o tamanho", se são de galinhas poedeiras livres, ou das que vivem engaioladas, se são biológicos, se são mais ou menos biológicos, se são criadas no solo, se têm ómega 3, se são de marca branca ou não, se são S, M, L ou XL, se estão partidos, se foram rachados, se falta algum, se estão mal lavados, se não foram lavados, se são "tão esbranquiçados!", se são demasiados torrados, se são pálidos. Enfim: há uma infinidade de critérios para a sumptuosa escolha. Se se vão cozer. Se se vão estrelar. Se é para o bolo de anos. Se é para o souflé... 

E eu, enquanto aguardo respeitosamente pelo fim do ritual, deixo-me refletir: e se as pessoas pusessem na escolha de um candidato político os mesmos olhos analíticos que voltam para os ovos? Se é biológico, se foi criado ao ar livre, se está rachado, se lhe escorre um líquido amarelado pela casca, ou se é um ovo decente para a omolete? E, dado isto, rio-me, abro a caixa, tiro-lhes as medidas, e pouso-os com o cuidado de uma mãe no cesto das compras. 

 

Vou-me.