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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Narcisos cegos

O dia amanheceu cinzento e nada me ocorreu senão sentar-me na mesa enrugada e deixar o lápis correr. Mas o lápis não correu, nem sequer se moveu, a não ser, depois, à volta de si próprio, como uma negritude concêntrica, extenuante. E fiquei o resto do dia a olhar para o resultado, temendo que todos sejamos, afinal, esse círculo infindável projetado por um artifício já rombo. 

 

 

 

Da mudez, parte II

A mulher sentia-se febril, calafrios viajavam pelo seu corpo franzino, emergindo da cabeça de muitas línguas. Cada uma proferia uma história, um conto, um enredo, um poema sem rima. Cada uma falava por falar, sem encadeamento ou coesão discursiva, apenas jorrando as palavras como metáforas de um sentimento, ou como captação do real apetrechado pela beleza figurativa da palavra, criando novos mundos, dos quais ela era mera espetadora, como se estivesse dentro e fora do seu ser, dentro e fora da história, dentro e fora da sua cabeça. Contrafeita, caíu-lhe uma lágrima que, contudo, não lhe humedeceu a mão; antes a matizou de um negro de tinta nanquim, num cursivo primoroso, magistral representação do que sentia. E outra se seguiu, e mais uma, e mais outra, lágrimas que a mulher não conseguiu travar: dos olhos lhe chorava uma narrativa, não sabemos se conto ou romance ou novela, epopeia não, que já não se usa, dizem, sem que a mulher a pudesse engolir, como fazem as pessoas envergonhadas com o seu ato mais humano, prova de resiliência e não de renúncia ou prejuízo, acabando por suprimir o seu interior líquido até secar. 

E os que passavam não viam, nem queriam ver, até que a mulher levou as mãos já negras à boca, e contraindo-se o estômago, também daí lhe saíam palavras e palavras e palavras, como uma digestão por fazer, ou como Jonas, feita a reflexão. E, negras, frases inteiras, adversativas mas disjuntivas também, ou explicativas que também fazem falta, copulativas e conclusivas, de modo que era um texto refinado,eram expelidas violentamente, sem nexo, parágrafos fora do sítio, emaranhadas as provas de um pensamento fértil. E como muitos vieram ver, preocupação nula, curiosidade voyer máxima, a mulher recompôs-se, um morrão em fuga, e desapareceu entre a multidão. 

 

 

Converteu-se ao silêncio ou emudeceu?

Já não me recordo se me contaram, ou se, numa das minhas deambulações citadinas, concluí esta história de um rosto que levitava sob a lente castanha que me salvaguarda o olhar. De qualquer forma, é real: esta é a história de uma mulher que trazia tantas palavras na boca e no pensamento que, na impossibilidade de as verter, emudeceu. 

 

Era uma mulher que vinha de longe e se havia sentado no primeiro degrau da escadaria. As palavras pesavam-lhe na cabeça e ela mais não pôde do que sentar-se ali, à sombra dos que passavam. Procurava distração no magote de pessoas que ali se representava, mas os botões dourados do sobretudo de um transeunte que esbarrava com todos os outros, depressa a consumiram, martelando uma modinha sobre "o sol dourado que no sangue de escarlate se vertia". Esfregara os olhos, mas mais não viam do que a estampagem das palavras em série, um telhado "negro como os cabelos de uma cigana que saiu à rua numa noite mais clara do que a madeixa que se soltava do capuz que a encobria", uma cruz da "igreja onde um homem se quis pregar no madeiro que balançava sobre os bancos de madeira polida, e se sentava sob a mesma, anotando a forma mais eficaz de a alcançar", e então a mulher fechara-os, empurrando a solidez das frases em catadupa para dentro, para dentro, as mãos como represas, a boca murada. 

Haviam sido horas, dias, semanas, meses, anos e décadas de privação. De ruído, de estridência, de roufenhares, apenas. De prenhes silêncios interrompidos, de reflexões emaranhadas subitamente por um grito, por uma luminescência contrita. De diálogos reclamados e eternamente indeferidos. De carícias escusadas. E de carências. E assim, as palavras que dos silêncios de harmonia brotam, atrapalham-se na escalada, vão-se acumulando, azedando no desfiladeiro. As palavras que inauguram sentidos, na azáfama dos bulícios, das imposições, do estardalhaço das horas, ameaçam apenas, calcinantes na garganta. 

Pesavam-lhe as palavras na cabeça, pressionando a voz, desaguada, nos alvéolos pulmunares repousando. 

A estridência, a desatenção, a negligência, o viver sozinha entre a multidão cegada pelos holofotes imediatistas, interromperam-lhe a voz, suspenderam-lhe a sintaxe, deixaram-lhe frases exclamativas por entoar e parágrafos declarativos sem informar, e cessara-se, assim, a palavra. Mas não o pensamento, que, amorfo, cuspia reflexões a cada abalo. 

E a mulher emudeceu.