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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Desse tal humano

A palavra humano tem sido de tal forma abstratizada que se tornou uma mera aparição fantástica descarnada: resta-lhe somente um vago lastro de navio semeando rasgos, milhas e milhas afastado. Na verdade, disse ela, o humano sempre foi o contrário do que lhe atribuíram os mais zelosos defensores da sua dita significância: um simples cobarde sanguinário, invejoso e hipócrita, pronto a retificar o tempero se o veneno do fel se lhe assoma aos dentes e o vizinho lhe toca à porta. Assim sendo, a desumanização é o que nos basta: sermos límpidos e desnudados da condição de Homem, já que nunca conseguimos fazer jus ao nome. Fôssemos deuses.... mas esses, em constantes rivalidades brotadas da urgência de se engrandecer face ao outro, da injúria e da voz pérfida em cerceio. O Olimpo é uma longa citação da morte, da libido e da traição. Deus fez a mulher parir com dor e o homem pelejar pela sua descendência e, bem se sabe, cada um arreganha os dentes pela sua. Pousou a chávena de chá, de onde se erguiam fumarolas na serenidade perfumada da menta ainda esverdeando os campos.Eu levei o cigarro à boca, segurei-o entre os dedos, observei o vermelho das unhas, como embebidas em sangue de uma funda ânfora, e deixei-me afundar no divã, o acetinado amarelo repuxando sob o meu peso. Resta-nos, voltava a vida à sua voz, a mão sobre o peito alvo, desumanizar, menina, desumanizar. 

Os meus lábios entreabriram-se, ri-me, primeiro uma gargalhada baixa, num pudor seco, e depois em crescendo, lasciva, tributária dessa desumanização que se lhe enroscava na orla dos lábios como uma gato vadio fazendo cama. 

  

Nomes de árvores

É engraçado que fales de árvores, do desconhecimento dos seus nomes, de uma quinta em cuja terra abriste uma cova e depois a fechaste, já alimentícia e fecunda, para felicitares o aniversário do teu nascimento com uma árvore de nome risível. É engraçado que fales dos nomes das coisas, aquele que não se profere, não porque se desconheça a sua designação - o que não falta são livros de botânica -, mas porque o verdadeiro nome vai além da articulação do som e, sim, se firma e nasce do sentimento que se lhe prende ao fecharmos os olhos. Na verdade, as flores têm dois nomes: o que articulamos oralmente, não raras vezes desconhecido, no secretismo das grandes bibliotecas, e o que conhecemos interiormente, no miolo do corpo e da mente, antes da fala, antes do som, e antes ainda da lógica obtusa do pensamento. E a dificuldade é reconhecer a flor quando a dizem margarida, quando a dizem acácia, se antes do olhar ela é a mesma, no pé alto e vaidoso, no aroma fixo, na doçura ou no amargor, na maciez que evitamos; elas colhem um nome antes da semente. É o nome que lhe damos consoante o que elas nos segredam. 

Eu lembro-me do esplendor albugíneo das frésias e das tulipas entrecortadas pelo frescor acalmante do verde do ramo de uma noiva, do narciso e da vaidade do que nas águas se espelha, das rosas da coroa que a tua família enviou à minha quando a tia morreu. Por isso, são elas, as flores e a tia, que nos terão dito palavras semelhantes, e por isso tão apartadas quanto os quilómetros que nos separam, não fôssemos nós diversos, que nos unem. 

 

 

 

Silly season

Verão é tempo seco. Seco o dia, seca a noite, seca a imaginação. Tudo em declínio sob a ardência. Ironia e contradição, já que a melhor prosa, ou a mais viçosa, pujante, tende a nascer do tumulto, de uma fornalha interior periódica, impetuosa como um vucão. A gente ajeita daqui e dali, passa-lhe uma escova e ela esbelta-se. 

Mas no verão tudo é atraso, tudo é acalmia, valha-nos o frescor marítimo da verdura, tudo é lentidão, enquanto o sol faz estalar as telhas já negras e as de cor de fogo crepitam. Bem se procura uma ideia, uma teia em que sejamos aranhinha, mas nem teia, nem Teseu, só meia dúzia de palavras dúbias, enredo fraco, sentimentos flutuantes, caraterização supérflua.

É bom tempo para versos bucólicos; talvez açaimando-lhe a frescura da erva nasça da calentura da palha seca, requeimada, um Dom Quixote a braços com a solidez do supérfluo. Ou do ardência do alcatrão nasça um romance caótico, de um casal a braços com a sua relação, uma traição e golpes de navalha na carne tenra, como nas óperas antigas, sempre a castigar a mulher, inoportuna Eva. Talvez seja hora de golpear um José ou um Otelo, só para ver o sangue jorrar vermelho, um acesso intermitente de insânia extravagante, questionar se afinal é o homem quem ensandece. E a serpente é Iago, a bifidez dos gestos, a penumbra dos sentidos. Desdémona endemoninhada, abrindo gargantas, poças de sangue, Iago, Emília, e o infeliz Otelo. Ninguém compreenderia a ironia, a palmatória, e Eva seria ofídia e falsa como desde a abertura do jarro bojudo.