Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Retrato irónico do plano da dona de casa com pretensões literárias

Percebesse eu russo e estaria como que sentada à mesa dos vizinhos da frente, sorvendo-lhe dos pratos os aromas que exalam em sentido ascendente, e os sabores dissolvendo-se sob a língua. Mas resta-me, assim, a simulação de uma proximidade e casual intimidade oca, de janela a janela, a minha tarde devassada pelos olhares furtivos que em nada se deslumbram dada a apatia do cenário: a mesa disposta ao centro da abertura, as três laranjas enrugadas no seio da taça bojuda ligeiramente chegada para a esquerda, o computador ligado e o cabo deitado sobre a mesa como um morto, inerte e negro, e uma mulherzinha sentada ora de frente, ora de lado, na tentativa enganosa de mudar de horizonte, sempre balizado no que podemos referenciar como real, e, por essa penosa razão, aberto como uma planície alentejana. Podem, por vezes, assistir ao eficaz momento de criação de algumas linhas, aos diálogos altos, enquanto o ferro queima a pele sem que faça doer, ensimesmada que me encontro nesse mundo que não chega a recriar-se depois, porque as palavras já não são as mesmas, nem tão pouco o sentido lhes aufere lógica. 

Bem, mas este não era o tema, o desconsolo de existir em solidão, mesmo que se acumulem as vozes dispersas, por todas serem, afinal, a mesma e a mais familiar delas. O que me pareceu de importância no plano de concretização a médio-prazo prende-se com a delimitação formal da obra. Há que começar, especialmente nos dias desacordados, a estabelecer metas, além das diárias: escrever uma ode enquanto faço a lista de compras, descrever o ambiente enquanto estico o lençol, e decidir-me face à tenebrosa formalidade teórica da presença do narrador enquanto descasco a batata para o guisado. Isto sim, é um plano à altura de uma verdadeira profissional. 

Portanto, um tratado, tendo em conta que se cose um tema transversal em dois cadernos, parece-se uma ideia florescente, e, já que foi fulminante, será, certamente, de valor. Escrever romances não saberei, que sei eu dos outros senão o que me vai na cabeça?, pelo que um escrito curto mas razoável, acompanhado de mais dois, com as devidas alterações sob o ponto de vista, a focalização, e chamar-lhe-emos conto ou novela?, era excusado este rosário e crucifixão sobre a forma: é só um texto, nem narrativa, nem talvez poesia, só um emaranhado de temas cujo formato não limita o sentido. Mas divago, novamente. O que eu sei, afinal, é divagar. Este meu diário, em que narrador e personagem e autor se ficcionam é a minha praia. Há autores que afirmam não ter imaginação, talvez também a mim me falhe essa criatividade, pelo que me resta esgueirar-me por outra porta, questionando os limites, testando definições, discutindo-lhes as certezas, as imposições prescritoras. Neste exercício de hoje, nem conto, nem parábola, nem novela, só autoficção, só personagem ingénua e ridícula, qual palhaço rindo de si mesmo. 

Assim sendo, temos um tratado. 

 

 

Encosto

Aterra-me o arrepio frio que sinto quando, de madrugada, deambulo por entre estas paredes que são outras e as mesmas em simultâneo, paredes gastas, antigas, de palacete macambúzio, e esta chuva miudinha que ouço lá fora - sonharei?- me atravessa os sentidos, cortando os dedos gélidos, a face escorreita e fantasmagórica que me olha de soslaio da porta envidraçada, o convite enviesado, o sorriso ambíguo, o queixo firme, mas esta não sou, apenas o retrato do fluxo do pensamento, a abundância de palavras entrecruzadas, muitos sentidos em bruto, delapidando-se, autónomos e fugidios, as flores desgastando-se policromaticamente, o vento gasto, a porta rangendo, o gato ougando sob a telha transparente, e as palavras agudas lançando-se, uma gargalhada maníaca, a impressão desfalecida de um toque, de uma presença superior e do reino animal. O que trago são pedras, meu senhor, não flores ou pão, rochas maciças nos bolsos fundos da alma, densidades curvas ou obstusas, puxando-me para baixo, para o leito despido do rio, fluxo audicioso e escarninho, e depois a palavra, deslizando como um peixe ascendente, o sol ardendo contra os olhos abertos ante a limpidez da água. Se a letra assenta, então o pensamento articula. 

Horas (des)vividas

Envelheço. É a ruga que ultrapassa a expressão, fundeando como os pés junto da rebentação em hora de preia-mar, ou a bruma sob o olhar, sublinhando a tórrida procrastinação do sono ou os despertares ansiosos. Mais ainda, o deixar passar as horas, aguardando apenas que o dia acabe. E mais um se conta como vivido no calendário.

Mera contagem do tempo frívolo, do dia incapaz e da existência em suspenso. 

 

Ícaro

Perseverar. A constância da afirmação da liberdade e a firmeza da recusa do fim da era onírica são a única possibilidade de genuína sobrevivência. É subir aos sonhos e não lhes deixar nada, nem o pó do osso: pelas mãos sulcadas fazíveis.

Dicefalia da solidão

A solidão só é um estado penoso quando deixamos que o seja realmente. Se o nosso miolo permitir que aos nadas que se assomam à nossa volta seja permitido o protagonismo. A solidão habita-nos e revela-se, bicéfala que é, magnificentemente presunçosa nos nãos autoimpostos mas contrafeitos, na revogação impiedosa da nossa vontade, na nulidade aparente da nossa existência, nos calares contritos, nas ações contrariadas, nas respostas que desfalecem na garganta, a voz menoscabada.

E saber-lhe do isolamento a graça e do silêncio a calma. E saber-lhe do despovoamento a gestação divina. A alegria alta e perene. E ver-lhe, simultaneamente, a face arquétipa e dura, rocha fantasmagórica e sentenciosa: a orfandade a que cá dentro nos largamos quando o ser é espezinhado pelo pretensioso menosprezo do outro.