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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Assistir à vida

Os meus vizinhos mudaram-se. Percebo agora a insistência na lavagem abrupta dos vidros. Antes eram dois homens, agora um homem e uma mulher, ainda jovens. Pelos raros minutos em que estive na varanda, pude ver-lhes as faces esperançadas de relance, alguns cabides incompletos vogando no armário. Que desarme, assistir à vida!

Aparição entre aparições

Faz-me falta o campo onde existe, em cada despertar, uma sensação límpida e inteiriça da vida e da morte. A cidade é uma eternidade fingida, bacoca, simulação mal construída da infinitude que, por ser desprovida de seriedade, nos alimenta as vaidades. Mesmo que os parques nos permitam adivinhar a estação do ano, toda a articulação dos dias assenta no horário maninho, na circulação infinita e no desfasamento que cada universo humano constitui. Junto a um prado, a vida rural portanto, sei estabelecer a vívida roda, a noção de início e fim, sempre em recomeço. A eternidade aí se constitui por variação, enquanto que na cidade o dia é sempre o mesmo, faça chuva ou sol. O sino das capelas aldeãs faz-nos sempre questionar quem morreu e dá-nos, subtilmente, a noção real da nossa limitação, impondo-nos, por essa contraditória razão, a vida. Não se trata de conhecermos todos os que lá residem, a maioria das vezes não os reconheceríamos na rua; trata-se antes da regalia que o contacto com a natureza nos propõe: uma humanidade profunda, que nos leva a olhar o outro com a benevolência de um bicho. 

Faz-me falta uma nesga de terra para me segurar ao eixo. Que me puxe para baixo e deixe a gravidade atuar até ser gente de osso e carne e músculo e não esta aparição entre aparições. 

Prosa que deu em verso ou a anterioridade do poema anterior

Ah!, quem dera ser inteira e não esta manta retalhada. Que me valesse a ânsia e o desespero e a desarticulação da voz e as soubesse curvar sobre a folha, o lápis tateando, tateando. Soubesse eu usá-lo e seria livre e una e eterna. Esta ruga que me transe, a apoteose do nada, meras pétalas e nunca a rosa inteira. O relógio maninho deliberando, a obrigaçãozinha material, a reponsabilidade habitual. E eu queria apenas uma infinidade de meias-horas, gastas e perenes, afinal!, longas e sempre extintas mal principiam. Romance tosco que não afina, prosa pobre de quem não aprendeu a lição. E a sombra que se ri, queixosa, atrás do espelho, reflexo dúbio da aparição. Serei eu?

 

 

 

 

Um poema de sol em -ar ou a ironia da rima

Ah, era estender-me ao sol e deixá-lo comer-me o cansaço e suportar,

com ânimo,

a quentura alva, a chama cálida ainda, a labareda já alta e salutar,

um ínfimo,

de um sol, de um lume, de uma fogueira ou de um fósforo a ourejar-

-me nos olhos fundos e irrefletidos, distendidos na sombra agreste.

 

E declamar sem constestação: ele vive, e eu não. 

Poética do absurdo

Esta é uma poética do absurdo. Somente. Do absurdo que eu sou e que tu és: eu e tu, somos diversos e no entanto unos, porque é no absurdo do inesperado que nos unimos. Já nem interessa a ideologia política, a formação, os estudos, a família, os amigos, as viagens que porventura terás feito ou virás a fazer; o absurdo toma sempre lugar: seja o da morte, da doença, da infelicidade, da injustiça, do desconhecimento de mim, seja o esquecimento ou a dúvida. E por isso respiramos, para sabermos que o absurdo continua.