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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Notas sobre um dia de sol inoportuno à treva da menina do olho

O meu amor disse-me 'descansa', mas eu nem o via, só a abóbada azul lá fora, de onde veio tanta luz? O meu amor enumerou os ministros do novo governo, mas eu esforçava-me na degolação das sardinhas, estripando-lhes as entranhas. Fosse o século XIX e já eu, enquanto personagem ficcional, teria arranjado um amante, aborrecida que estou, ou, o século XX, uma nota (filosófica, pois) de suicídio. Assim, neste tempo, não querendo ser anacrónica, resta-me talvez agir como quem consente, ouvir a voz miudinha crescer, e deixar a rebeldia para quando o chão estiver limpo. 

Desilusão do eterno ou o logro do verso

Uma pergunta que no estudo da literatura faz mossa, prende-se com a construção da personagem: ela impõe-se ou é manietada pelo autor? É fruto verídico da lembrança ou mera construção selvática da imaginação? Quando se impregna ela de uma e de outra seiva? É ela simples anatomia somatória de sonhos e caraterísticas ou repetição aplainada de quem escreve? Os livros são os mesmos? As histórias alcançam morais infinitamente superiores às que se lhe lêem? Onde começa e termina o real? Uma ave no céu é a mesma que se eterniza no poema? Pena, bico, asa, pata? E viverá ela em paz na eternidade que lhe conservámos, a asa alongada, o corpo planando, na plenitude sacra e definitivamente acabada do poema, pois que a eternidade, sendo perfeita como o pretérito, é já um tempo acabado e nunca verdadeiro? A poesia mente-nos? 

Da importância do autognosia

Pela manhã, fui emaranhada numa rede de ponto mínimo, os magotes sucedendo-se como peixes agitando-se. Mas eu caminhava em sentido contrário. E foi só quando parei de me debater contra a minha situação de contraversão que a turba me deu espaço para andar.