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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Notas sobre um dia de sol inoportuno à treva da menina do olho

O meu amor disse-me 'descansa', mas eu nem o via, só a abóbada azul lá fora, de onde veio tanta luz? O meu amor enumerou os ministros do novo governo, mas eu esforçava-me na degolação das sardinhas, estripando-lhes as entranhas. Fosse o século XIX e já eu, enquanto personagem ficcional, teria arranjado um amante, aborrecida que estou, ou, o século XX, uma nota (filosófica, pois) de suicídio. Assim, neste tempo, não querendo ser anacrónica, resta-me talvez agir como quem consente, ouvir a voz miudinha crescer, e deixar a rebeldia para quando o chão estiver limpo. 

A arte da estagnação

Pensava assim: a pior atividade e, de longe, a mais ingrata, é a de dona de casa porque, na verdade, nada do que se faça representa, aliás, é uma construção, mas uma tentativa despudurada e sórdida de manutenção. Como é um propósito de manutenção, situa-se, contraditoriamente, no campo do inerte, da imobilidade e paralisação.

Não há avanços, evolução, projetos, metas, apenas objetivos repetitivos. Trata-se, pois, de mera dissolução no nada, no momentâneo, no efémero da nódoa e da migalha, do cabelo e do calcário, da gordura e do pó. É a evidência mais resplandescente do nada que a vida representa quando comparada à morte: acordar nas manhãs ainda de névoa, rencontrar as mesmas faces escalonando o asfalto do bairro, pedalar, apanhar o comboio, ver fantasmas planando sonolentos, descer na plataforma e atravessar a rua, beber o café, trabalhar e regressar a casa para, no dia seguinte, repetir o mesmo até que a morte venha. Não, a morte não é absurda, o absurdo é como gastamos a vida. 

Desilusão do eterno ou o logro do verso

Uma pergunta que no estudo da literatura faz mossa, prende-se com a construção da personagem: ela impõe-se ou é manietada pelo autor? É fruto verídico da lembrança ou mera construção selvática da imaginação? Quando se impregna ela de uma e de outra seiva? É ela simples anatomia somatória de sonhos e caraterísticas ou repetição aplainada de quem escreve? Os livros são os mesmos? As histórias alcançam morais infinitamente superiores às que se lhe lêem? Onde começa e termina o real? Uma ave no céu é a mesma que se eterniza no poema? Pena, bico, asa, pata? E viverá ela em paz na eternidade que lhe conservámos, a asa alongada, o corpo planando, na plenitude sacra e definitivamente acabada do poema, pois que a eternidade, sendo perfeita como o pretérito, é já um tempo acabado e nunca verdadeiro? A poesia mente-nos? 

Da importância do autognosia

Pela manhã, fui emaranhada numa rede de ponto mínimo, os magotes sucedendo-se como peixes agitando-se. Mas eu caminhava em sentido contrário. E foi só quando parei de me debater contra a minha situação de contraversão que a turba me deu espaço para andar.