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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Desistência

Ver pelos meus olhos a circularidade mestra da vida e da morte, que, aliás, devia ter um nome. Dizem que é a vida, a morte pertence-lhe. Será ao contrário? Eu não sei. Não sei nada. Quando era nova, pensava que sabia, mas agora sei menos do que sabia quando, aos cinco anos, comecei a chorar compulsivamente numa loja. Ninguém me beliscara ou esbofeteara.

Ver pelos meus olhos. Além das vagas, do comentário fácil, da imediatez, do bulício. E ser corajosa o bastante para o guardar para mim: resistir à palavra, ao seu endeusamento, calá-la no vórtice da sua geração, amainando-lhe o sentido incompleto, e sentir, somente, a verdura, a frieza da luz, a agressividade de uma onda, a pacificidade de um rebanho ao sol. Cruzar-me com a turba em contramão e firmar-me sem que eles me levem, citá-los e beber-lhes as mágoas, as alegrias, o tempo que lhes resta, e caminhar, segura.

O mundo já tem poetas que bastem.

Extratos

 

Talvez o encosto tenha sido ela mesma, o medo varejando-lhe ardis vários,

artificiosos e íntimos, arapucas autoinfligidas, o desejo escarninho de falhar e sofrer,

preferível à realidade óssea da imperfeição, uma sabotagem (in)consciente.

Venha viva se for santa

Venha viva se for santa

 

Seis dias, e ninguém a vira. No liceu, a secretária rasa, em casa, a cama feita. Raras aparas de lápis roçagando o tampo já carcomido, e as pontas do lençol varrendo o chão. Não se lhe conheciam namorados, ligações políticas, interesses incomuns, estados de saúde incertos. Ana desvanecera-se.

A polícia veio, rondou, os amigos distribuíram fotografias, a vila partilhou o sucedido, a bem da menina, coitadinha.

E quando a trombeta finalmente anunciou que Ana vivia ainda, de saúde, e de paradeiro descoberto, o povo, batidas as palmas, foi rosnando aqui e ali, que desplante!, preocupar desta forma as pessoas para aparecer num país distante, assim, sem água vai, o jornal também não explica, deve haver é gato… Caía-lhe bem, porventura, um crimezinho, um 'romancete' que tivesse terminado no fio estridente da navalha, numa valeta, um pai alcoólico respingando violências, ou uma mãe descasada e amancebada declinando-se-lhe já o juízo, uma gravidez de um homem casado e o fim tenebroso que dariam à criança. Mas Ana nem tugiu nem mugiu, e o povo ladrou até encontrar nova pobrezinha, antecipando-lhe a sorte maldita com as duas mãos sobre o peito.