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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

A um melro insolente

Há um melro,

Insolente,

que vem vindo

na minha distração,

aproxima-se e ronda,

pretas as asas,

bico alto,

e à traição,

olhinho azeviche curioso,

rouba-me as bagas rubras

caindo em folhos

sobre a madeira velha do balcão. 

Alhos e rosas

Cheirava-me a mão a alho

logo pela manhã

enquanto o sol ainda tenso

se desnudava à janela

 

Os dela talvez cheirassem

a tília ou a rosas de santa teresinha

 

mas eu tinha os olhos postos 

no traçado curto da poesia

 

E chegava-me a sua delicadeza

para obnubilar o escarninho

do alho e o

Despeito da rosa.

 

Fim

Desistiu

e não foi caindo

como dama 

inocente

que desfalece, 

(de poetas velhos,

que as queriam sempre

belas e jazidas),

minguando-lhe

a força na fragilidade

da pétala. A flor 

morreu

e desprendeu-se

impetuosamente,

músculo primitivo

sobre a terra humedecida,

outra já no chão,

esfarelado o tempo.

 

 

Chove

Chove

e é bom que 

chova

porque me 

chove 

dentro também,

talvez a 

chuva

chova

de dentro para fora

e seja um milagre 

meteorológico

que nenhum cientista

possa comprovar

de bisturi e olho crítico,

sem deixar que ele

também se 

chova

de dentro

para fora. 

O irrealizado

O tempo passa

E eu passo com ele.

Secas, as entranhas

como folhas velhas

largadas pela cidade.

Em rasante,

Nunca alcançante

do que não foi

e devia ter sido

só porque eu disse que sim.

Ea majestosa sombra 

do arco que se põe,

também ela já em fuga.