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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Extirpando demónios

De onde me vem isto que me come por dentro e amarfanha a voz, o tinir dos rins, a acidez do estômago, a grande pedra agelasta no meu peito doces tremores anelando? De onde me vem este peso, este cansaço, este arrulhar de demónios segredando pesares, arrastando-me para o fundo de mim, desacreditando-me as mãos, as pernas, a cabeça? Quem mos pos, bem aqui no peito, e ainda abraçados às coxas rijas, pálidas, indigesta a sombra que em mim fazem, como árvore morta sobre o pó? Fui eu? Foram eles? Tirem-nos, extirpem-nos, rasguem a pele, o músculo, a banha e raspem-lhes o riso cínico até que também desapareça.

A arte do arrependimento

Acabei de presenciar, da janela, algo verdadeiramente interessante: três aves arrependendo-se da direção que tomavam, suspendendo-se sumariamente no ar, as asas ininterruptas, céu esbranquiçado, inexpressivo, e retornando ao caminho de origem. Que predador vistes, que lição me dais? Sempre pensei que as aves voassem em frente, enventualmente em círculo, redobrando esquinas imaginárias, mas estas três fizeram de um segundo a conciência do arrependimento, da suspensão, e restituiram às asas a solidez do voo já traçado. Uma desistência? Uma interrupção? Uma escolha liberta, ou, peneirada de perigos, a trilha desfez-se na evidência da renúncia? 

Balada das três

Chego às 3 e o meu coração estremece, sai da rota,

A concentração esquiva-se, a máquina parou,

O almoço tarda

E toda a gente está a morrer

à nossa volta

e ficaremos sós em nós,

o dia amanhece igual,

outra serpente vem,

aninha-se

alimenta-se

dos nossos medos.

O tempo não pára mesmo que lhe grite

e volto atrás distribuindo vírgulas

que não sei o ritmo sem elas,

mas a vida não tem vírgulas:

só orações sem fim,

nós é que temos vírgulas,

pontos,

longas supressões,

morte. 

 

Placa de Petri

Na capital, 

tudo é científico:

Pé, mão, corpo, letra,

verso insuflado

não!

Na capital,

tudo é ciência:

a ave, o sol e o amor,

tão científico

que lá usam luvas

e dissecam

versos no laboratório.

É ciência, claro,

se eles a fazem,

como a não faz o 

Poeta?

Mas nós, aqui,

que não somos da capital,

avivamos, lustrosos,

o nosso fogo,

e deixamos

que sejam os poetas,

sem luvas,

queimar-se no que nós

não queremos ler

na frieza augusta

do laboratório. 

 

 

Presenças

Neva e eu assisto.

Ela vem, desce, rodopia,

E desaparece no chão molhado.

Flocos largos, esquinudos,

Puros e silenciosos,

Gastando-se na humidade.

Se não olhasse não via

Mas ela existiria de qualquer forma.

Um chá para duas

Ela disse: tenho de deixar a história. Tenho de a deixar andar. A história, perguntei eu? Não, a personagem. A ver se a vejo. Isso não é coisa do passado, daqueles tontos, sublimando a grandeza e a autonomia da personagem? Não sei, pouco se me dá. Não posso ser anacrónica? Podes, desde que isso não te afete. Mas precisamente na afetação é que reside a chave! Tu lá sabes. Deixo-a estar, quieta. Tens de pensar, não é? Não, tu pensas quando queres resolver um problema imediato. Este nao é um problema imediato. Não há nada que tenha para resolver. A história leveda. Deixo-a levedar. Preciso de distanciamento.