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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Malogrado vício da saudade ou a intermitência das relações

Não deve haver ninguém neste mundo descolorado que nunca se tenha sentido traído. Desconsolado, enganado, esquecido, desertado, estrangeirado, abandonado. É a deceção a tomar conta de nós. A deceção pelo tempo que os outros demoram, a deceção pelo espaço que nos atribuem. Pelo esforço que não fazem, pelo cinismo do foste tu quem partiu. E depois? O que era se tivesse ficado? Descobrimos os traidores na ausência, na dissolução do físico, e depois anuimos: que laço é este que se desfaz se eu não segurar as duas pontas?

Rios

Sou toda um rio,

o rio da minha nascença

quando chove e a fúria se lhe desperta

na foz:

a corrente estreita, a margem sobe,

o leito aprofunda-se

e a cheia violenta. 

Importância do batismo

Hoje dei nome a três trabalhos que tinha enrugando sobre a mesa, como gato vadio passeando na marginal. A gente aproxima-se, chama-o, bichano, pequenino, bichinho, mas ele não vem e não vem porque não tem nome. Ainda assim, que me interessa o nome das flores, se só lhes recordo o cheiro? Se a rosa cheirar a cravo, deixa de ser rosa? É o pefume que a faz chamar-se rosa ou é o nome o que a influi de sentido? Se eu fosse Maria, Júlia, Ana ou Teresa, seria outra? O que interessa um nome, um título, uma orquestração de sentidos que nos limita ao listável? O gato não vem porque não tem nome, mas essa inexistência faz dele inexistente?