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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Rarefação

O urgente ante o seminal, o imediato sob o pensamento, o supérfluo antes do essencial. Aluimento de fragas soltas sob os pés que alto voam. Já não lamento a moeda, lamento o tempo. 

 

 

Crónica de um poema de cozinheira

A saber:

chegou entre duas folhas de couve

verdes que dava dó nos dedos

escarlates,

mas depressa se sumiu no ralo

enquanto limpava as mãos

à toalha que é de algodão branco e 

não destoa da parede da cozinha,

e como veio, foi,

que já não houve tempo de ampará-lo,

o lápis de ponta partida e as costas 

da lista de compras 

infantimente rabiscada. 

 

Teoria dos sonhos

Hoje sonhei que cegava e que um cão de extraordinárias proporções me seguia, ao qual atirava pauzinhos que, tateados no chão, lhe serviam de entretém. Tudo era branco, quando nós acreditamos que a cegueira é a negritude travando-nos a vista. Pois a minha era branca, leitosa, ou de tule feita. O cão rosnava e mostrava os dentes, afinal eu via-os, grandes e solenes no aviso, eu, mas eu, a que sonhava, não eu, a que vivia o sonho. Há, portanto, uma ligeira interposição entre o eu que vive e o eu que que se vê viver, ainda que um deles esteja, aparentemente, segundo diz o sonho, retido na cegueira. E, mesmo sabendo sonhando-me, despertei cansada e, ditosa de ver, infeliz por não me saber cega e, ainda assim, capaz de ver.

Triunfo do sol

Hoje sinto-me incapaz de uma linha azeda, épico e imperial o dia. Talvez um salmo, um poema diáfano, de perdão, pelas exigências incontidas ao alheio, de humildade, pelos, também, nossos pecados, de humanidade, que resta como lastro de navio vazio em naufrágio anunciado. Ou nada, que é a forma mais verdadeira de viver o sol dos dias, concientes da sua refulgência e da nossa treva. Não dar conta da resplandecência da luz é ocultar a nossa escuridão.