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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

O sol também nasce sem propósito

Bebe o teu vinho, salda as tuas contas, come as tuas rosas,

e depois, vem, senta-te à luz, aborve o sol, essa quentura efémera.

Regressa,

bebe o teu vinho, come as tuas rosas,

demoradamente,

e vem, à sombra do sereno, deitar-te sobre a erva viçosa.

 

Bebe o teu vinho, salda as tuas contas, come as tuas rosas.

O sol também nasce sem propósito. 

Modo mínimo de vida

Mas a vida aqui é tão triste, o sol nem se vê, os pássaros vogando sempre sob a árdua tábua da nuvem, os telhados enegrecidos, o corpo apagando-se num sopro mínimo. Mas a vida aqui é quase inexistente, nem barulho faz, nem na lágrima que engulo porque ma dizem sonora, incoerente, testemunho do nada que me assalta. Mas a vida aqui é tão triste, cheia de silêncios humanos, silvares de bicho que come e dorme, nada mais prevê. Bem se sabe que uma mulher sem sonhos é uma mulher morta. Que o futuro sem dias é um tumor. Que viver pelos outros é ter já desistido de nós. Presa por uma nesga, nem me bate o coração, silencia-te, que o ruído da cava está a mais. Corpo que arrefece, à medida que o tempo me enlouquece. Mas estar louco é tão bom, é sair da margem e adentrar-me, sem medo de submergir, aceitar que a vida é breve e que nada dela tem o peso que nós resolvemos sentir. Lá fora, bem no alto, os pássaros voam, mas os pássaros são estúpidos porque nunca se deixam cair, nem atravessam o limite do cinza. E agora, fazia um poema, mas nem a palavra chega, nem a mão deixa. A literatura é sempre a réstia de alguma coisa maior. Quanto mais fraca, pior a literatura. Sobras que ficam no caminho como um cão lazarado de fome.