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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Das portas fechadas

Perder a graça da imaginação

é como não ter mão

na vida

e ir, pela soleira

das portas, sempre fechadas,

em desmedida

saudade de uma nesga

que se empurre,

primeiro com jeito,

depois com valentia,

e espreite até que 

nos confudam os olhos

num alvoroço doce

de fim de dia. 

Poesia é de comer co' as mãos

Ah, mas não!

Poesia é de comer

co' as mãos!

Larga a faca e o garfo 

e a penosa subtileza

do espírito.

Fere-a c'os dentes,

lambe-lhe as feridas,

o sangue bom e alimentício

escorrendo pela boca.

Sacrilégio?

Sacrilégio é

deixá-la à mercê

das moscas,

virgem morta

sobre os panos brancos. 

do lado esquerdo

Do lado esquerdo

é de onde trepa

o coração

sem deixar o 

lugar

que herdou

dos primeiros anjos,

macacos roufenhando,

do lado esquerdo,

sob as arcadas ossudas,

lugar de vida  e de morte,

persistência autónoma

e frágil,

basta estacar,

basta amansar o passo 

e o engenho arrefece,

enferruja e pára.