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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Ah, e depois, envelheces

Ah, e depois, envelheces, e não te alcança já a beleza do músculo sápido, das maçãs do rosto erguidas como um altar. Resvalas, distrais-te, desmazelas-te, e nem te reconheces ao espelho, ou nas superfícies vítreas poeirentas das lojas em fugazes e surpreendentes encontros contigo. Pisas folhas secas e murchas com elas, e embaraça-te a figura ridícula. Ninguém te olha, te enxerga, te admira. Vais na rua como sombra, quimera ausente, fogo-fátuo.

E dizei-me se é supérfluo vigiar as pregas da pele, ou se o martírio vem, afinal, de dentro, do lugar onde vence o coração,

onde o enganamos, sussurrando qualidades que não temos, tergiversando egoísmos e defeitos.

Ah, e depois, envelheces, e o interior apodrece. 

O tal dos sonhos

O outro nada mais tinha do que sonhos. E eu sento-me aqui cristalizada na mesma posição, certa de nada, antevendo a luz pelo recorte estreito do postigo. O sol nasce às sete e vinte e dois e põe-se às sete e vinte e cinco, mas daqui a dois dias, o sol nascerá às sete e vinte e quatro e por-se-á às sete e vinte e dois, e essa diferença mínima bastará para me saber em oclusão. Calha bem, que preciso de dormir. Às vezes, cintilam vozes nas proximidades, ah, mas eu estou sempre sozinha. Não há quem nos acompanhe, senão na procissão do funeral, e, mesmo então, teremos partido sós. E pergunto-me: quem virá ao meu enterro, certa de que também aí estarei irremediavelmente só. Se choverá, se fará sol e as aves desentorpecerão as asas sobre a terra revolta. As ervas crescerão, todos nos teremos olvidado de mim, dos outros, es ervas daninhas crescerão, as rosas podadas junto aos muros, a hera fazendo sombra. 

O outro tinha razão, acalentam-nos os sonhos, mesmo quando resistimos a tantos.