Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Encosto

E que sentido tem se eu me puser agora a escrever sobre o que não tem? -- amor, vida, guerra, pão e água, o desapego, a minha falta de serventia --  se depois escurece? É preciso alimentar os que resistem, parecer firme e educada, sã de cabeça, umbria só de voz, e recomeçar, todas as manhãs, ainda que certa das metades que me povoam. 

E nunca esclarecer este encosto, se sou eu ou a minha incapacidade, a minha hostilidade a mim mesma, ao que me habita desabitando, esse lugar de autoflagelação e autossabotagem, loucura talvez, atestada pela medicina, há neurónios que não se acendem ou se incendeiam na perfeita comunhão da mania. E repara: os nódulos da madeira nos teus dedos fibrosos, como se desfazentes, a verborragia, a compulsividade do choro, o cuspo entre os dentes caindo, a incompletude dos textos armazenando-se sobre a mesa, o cansaço sem sentido, o medo da abertura da porta, a ideação. E a consciência madura do período de enlouquecimento, tendo mão nele, segurando-o, até que se aniquila. 

Regresso a mim, e fica, no entanto, a dor de cabeça zunindo, a gargalhada entredentes dos demais, a ridicularização, a fama de leviandade.

Desilusão

Não é minha intenção dar-vos conta das minhas penas, nem tão pouco explicá-las - o queixume pertence a cada um, mesmo que o digamos em voz alta ou o escrevamos, em delicadas folhas brancas, salpicadas depois por algum composto ultrarresistente. O mais das vezes, estamos sós com a nossa penitência, os nossos lugares vazios, os miolos da indecidibilidade que permeiam a nossa relação com os outros. As palavras que me saem da boca têm outro significado nos canais auditivos vizinhos e, querendo manter a diplomacia, vamos escamoteando o sentido do que dizemos, tão diverso do que calamos. Por isso, atentai nas palavras que vos dou: a alegria de ir vivendo, a justiça do que corre sob a janela, a quentura das mãos junto ao peito. 

Tem vezes que

Tem vezes que escrevo na mesa da cozinha, só para estar mais próxima do fogão, e se ele fosse de chama, quantos escritos não queimaria, na certeza da destruição do erro, da reformulação da palavra, vezes sem fim, como a máquina da roupa, som de fundo, como que mergulhando-me nessa centrifugação rítimica do pensamento, dando nós nas mangas das camisas, sulcando o espírito, uma sova de água fervente e o tecido amargurado de entalhes fundos, deslaçados a custo, depois, sobre a tábua de passar, os desenhos já gastos, nem se percebe se uma ave ou um pássaro, a ave sempre foi mais poética, o pássaro é só uma coisa com asas vazando-nos os olhos postos no céu azul.

Já experimentei no quarto dos arrumos, mas tem pouca luz e espirro com o pó das coisas velhas que guardamos com a certeza de que as não usaremos novamente, empilhando irrealizações, imperfetibilidades, memórias aos fiapos, meias palavras desgastadas e em surdina, botas de neve ao pé da praia, cestos de piquenique de jardins que ficaram por dizer, vazados os sonhos, vazadas as coisas de sentido, de serventia. É como as palavras e o uso que lhe damos, gaivota perde as asas no seu afã de voar nesta casa fechada, sem espaço para estas coisas de sabotagem do eu, do sentido, do lugar certo do coração e da mão.

Era a fenomenologia

Eu digo janela, mas não é suficiente para deixar entrar a luz. A palavra não inaugura já o seu sentido, nem a sua função é ser ele próprio, apenas ressoar do seu reflexo. Digo luz e nem ela se faz nem eu me agito, calmamente sentada, o chá que imagino fumegando, apesar da sua inexistência. Digo ver e nem por isso vejo realmente. O que dizemos é um símbolo daquilo que aparece feito e, estando feito já, obedece a padrões de vontade que nos são exteriores e impercetíveis, fechados em torno de uma existência a que nunca daremos voz. Digo voz e estou já queda em silêncio.

 

A um cigarro fictício

Mas eu nem sei o que fazer às mãos,

enrolá-las no vestido, amarrotando o tecido que me deu

tanto

trabalho a aplainar,

corpo a corpo com a quentura do ferro,

ou sacar do cigarro a contragosto,

um cigarro é sempre bom para

dar o que fazer às mãos,

uma desculpa para as elevar, 

fazendo piruetas como quem realmente dança 

no caminho fumegante que deixa 

em declínio para trás.

Mas eu não fumo e

seria bem parvo segurar um cigarro

apagado entre os dedos

que não estão queimados

nem amarelos

nem tudo aquilo que se diz dos dedos

daqueles que fumam.

Não sei o que fazer às mãos.

E não saber o que fazer às mãos é

como não saber o que fazer connosco,

trazê-las retesadas junto ao tronco

ou dadas com embaraço;

pensando bem,

deveria começar a fumar,

para ganhar aquele jeito de quem pensa

encostada ao fumo do cigarro,

e poder levantar a mão com propósito. 

 

Estudo da influência da luz na escrita

Vocês talvez não saibam, mas eu vou dizer-vos da dificuldade de escrever, olhando uma parede branca e oca, entrecortada por uma nesga de luz macilenta e em descenso de manhã à noite - mal nasce o dia, está já escurecendo! -, e da influência da luz na narrativa.  

Bem, eu gostaria de dizer-vos sobre o efeito da claridade, mas como está escuro, tenho dificuldade em articular os sons e chamar-lhes palavras, que, às vezes, antes de as escrever, digo-as como se as ditasse, fazendo as vezes de musa, que é celeste e espiritual a sua aparição no modus operandi dos mestres. 

E depois, vou dormir, para ter insónias e certificar-me da escuridão, mesmo que possa tatear com as pupilas a mesinha de cabeceira, a cadeira de verga, a solidez da barra da cama e a suavidade do tapete ao fundo da mesma. Mas minto, eu nem tenho um tapete no fundo da cama, é que eu gosto de andar liberta, e bem se sabe que os tapetes travam os passos a quem passa, quanto mais não seja, na hora de os sacudir violentamente, recebendo de volta as migalhas da criança e o cotão cuja origem nos surpreende.

Portanto, escrever à sombra é como viver em insónia; o sentido não nos é claro a não ser que deixemos de prestar atenção e durmamos sem nos esforçarmos por isso. 

 

A fome

Tenho fome e falo demasiado, sem que as palavras me encham as ditas medidas e me matem a fome,

só servem para preservação de uma segurança maninha e infiel ao ser, afinal insurretas

no dizer

Tenho fome.

e nada diz que o tenha realmente. Apenas apregoa algo que não é fome

mas o é, para que entendamos que a sinto. 

A fome que tenho podia ser de outros anseios que não os terrestres 

e salubres, 

podia ser uma fome espiritual, mas essa vem sempre em palavras gastas na

escorreita partitura do poema, e, já se sabe, fome não quer dizer fome, e 

por isso, continuaria com fome, fosse de carne, ou de poesia.

E assim, ando sempre com fome, sem que lhe possa, sequer, chamar fome, 

sob risco de me dizerem esfomeada ou de me acusarem de ter lido o dicionário errado.