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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Gansos

Os gansos rasaram a janela e embeberam-se nos meus olhos, em seta esguia pelo âmbar, e eu mantenho-os na sua rota, delicados e assertivos, longos pescoços declinando a estagnação. O lugar do ir é sempre o bom lugar. 

Há corações pendendo da janela da frente

Há corações pendendo da janela da frente, cabides rosa desabitados, a janela entreaberta, o limiar do amor à descoberta e os treze graus desta manhã soturna vigiando-nos. Há corações pendentes à janela e se eu pudesse, ao menos, mostrar-vos como estremecem esses corações, mas a palavra perdeu-se e não sei agora regatá-la desse ponto sem retorno. O que eu dava para registar num poema vernacular essa aparição dos corações pendendo da janela da frente!

Terá que vos bastar essa descrição tosca: 

há corações pendendo da janela da frente

e neles um mundo que não se gasta

para contemplar

é preciso submetê-lo à raíz das coisas simples

e ser capaz de anunciar

que há corações pendentes à janela!

Se eu soubesse fotografar

e fazê-lo com mestria, veríeis,

mais do que cabides,

e do que palavras mal articuladas,

esses corações pendendo da janela.

Da frente. 

Porque, na realidade, um coração está sempre à janela, esse lugar de transgressão, violência ou desamor, tanto se dá como se recolhe. E mais não há como dizê-lo sem afirmá-lo como uma criança: 

estão corações à janela, há corações na janela da frente. 

Ensaios comportamentais

Ela perguntou: Tem dias que detesto toda a gente. Isso faz de mim uma pessoa má? Ela respondeu: Não necessariamente, o que te incomoda? Bem sabes, esta necessidade de me saturar de sentidos que o real não nos dá, esse salto para o nada, com a ponta dos dedos como as bailarinas. A melhor imagem para a ficção é a de uma bailarina em pleno voo, o corpo lançado com a virilidade e poder da partida, e a estagnação no ar elevada à eternidade. A ficção é esse momento de lançamento pré-queda, essa imersão num glóbulo espácio-temporal que nos desterra do imediato e do supérfluo. Eu quero lá saber da sopa ou do bife por temperar. E as pessoas, que têm as pessoas? Ora, as pessoas têm relógios e Stundenplanen, essa fragilidade palpável que nos esgota e envelhece, esse corropio de insensibilidades e imposições irrisórias; não me interessa nada. Quero o salto e o vagar dos olhos fechados sobre a ideia, essa execução disciplinada sem amarra. O calado cerrar de dentes e o que se lhe segue. A ficção é toda uma arte do corpo e da sua, espera, que tocam à porta, da sua quietude. 

Às quintas

À quinta, todos estão ocupados. Os da frente elevam a janela basculante e sacodem tapetes cujo pó macula as telhas pretas em descenso, para se arranjarem, depois, em frente ao espelho laminado, cabelos tufados, e a vizinha italiana sobe a escada com a mãe, pesadamente, batendo a porta e cantando como uma ave no verão, enquanto atravessa as divisões do diminuto apartamento. Foram às compras. A mais velha há de regressar a casa, depois da conversa, pelo carreiro de pedra que une os dois jardins relvados e mansos na sua exiguidade maçadora, o seu cabelo em flamas sobre a verdura que dura o verão inteiro e nos molha os pés de outubro a maio. Não raras vezes, em agosto, não podemos sentar-nos em grossas mantas contra a fachada sombria do edifício, e vamos acompanhando o sol em viagem, examinando compungidamente lençóis taciturnos ao dependuro. E eu observo o que me é dado observar enquanto os primeiros gansos soltam grasnidos tímidos, anunciando o outono. Fechasse os olhos por muito tempo, reconheceria as estações e os dias da semana com perfeita exatidão. É que todos os dias o real me conta histórias no silêncio que eu faço, na solidão das paredes fechadas. Cada porta encerra segredos que nenhum de nós reconhece, a não ser pela imaginação precipitada da resposta neofreudiana dos achaques dos vizinhos. Mas eles são tão fantasmagóricos - as portas fecham-se antes que pisemos os degraus que abrem para os patamares sempre tão vazios - que talvez não existam senão na minha invenção. Não os conheço nem eles me reconhecem o dom de lhes dar vida. Ingratos. Sonâmbulos e infelizes. Nem uma paixãozinha, um estremeção, vívida demonstração da sua existência.