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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Humanidade reloaded

Com que lavas as tuas mãos 

diariamente

da culpa do crime de guerra? 

Com que cara sais à rua

do outro lado do cerco?

Com que pele

nadas no mediterrâneo

onde a criança sucumbiu?

Com que adormeces

todas as madrugadas

sabendo ao relento tantos deslocados?

E como te defendes

da tua comiseração? 

Como adjetivas 

a tua humanidade?

E como tomas parte

de mais um assalto à vida

por desculpa da tua civilidade? 

 

 

 

 

 

Ítaca ou um exercício de pontuação

não me dês Ítaca eu não saberia consolar a fronte contra seu regaço reconhecer as fauces a voz perita nos meus enfezados frutos ante a minha hipoacusia a mão desfechando ainda adeus no silêncio daninho da cicuta com que me desobrigam não lhes quero absolvição isso seria sucumbir vestir-me de vítima enamorada do carrasco e eu quero a minha cabeça sempre à beira do meu próprio patíbulo segregado à mão para meu infinito fim eu quero ser outra para não ser em mim eu quero a dúvida de ouvir gemer as sereias atada ao mastro pelos pulsos penitentes num consolo entumecido de criatura rugente

 

quem disse que Penélope não olvidou a malha

 

a pátria é um barco aparelhado

recusa de mormaço alienado 

 

Política de identidade em hortelã

A idiota ortou-me o C – outros ortaram já, e ortar-se diz que era uns aos outros – no artão de cidadão – ouça, isto cidadói-me!, que sou cidadoa, e ela não percebeu a piada – e faz sentido. A balconeta iluminou-me como os cruzados ao perros infiéis, esclareceu-me gentilmente como guardar as ompras, rapidamente como convém ao sistema, diligentemente, como convém à imagologia, Ja, whatever, feri eu, e took my Zeit mit meiner kontaktlose Bezahlfunktion girogo Card, a nacionalidade foi a pior coisa que inventaram. A obediência é a primeira declinação da condescendência. A nacionalidade, a segunda. Rosa, rosae, rosarum-me. Duas grandiosas mo[n]stras de inteligência oatando. Ele há gente talhada para obedecer e eu sempre fui insubmissa pe[r]d/tiz e perguntona. A riatividade é omovente pelo que de parca influi. Mas a idiota onsolada de raízes bacalhusas ortou-me o C, fez-me mim em falta e localizou-me, Ortando. Agora sou só com L, de lugar lá. Où? Dia. E vamos fazer aquilo dos dedos, também agregou. Eu tive pensamentos pecaminosos. Onfesso. Mas era só estupidez. Outro virá e me omerá a seguinte e assim sucessivamente até chegar ao ada que já sou, mas com rótulo. E fui pela Severin, eles eram tantos e eu em mim, quando queria estar neles, ansada de me aturar, esferas lançadas ao ar, chocantes aqui, e ali revolventes, milhões de mundos e um prato que nos sirva de nação no século XXI. Em asa ortam-me, fora, ortam-me, e eu declaro: ou me orto eu ou ninguém orta mais nada! 

Permanência

Nada de novo.

A vizinha de baixo ainda vai às compras à quinta. O da frente ainda se penteia ao espelho pelas dez. O céu não muda desde a última estação. 

 

Amálgama

M

minha gaguez é como  

como

uma cegueira

(e como, no brio o breu,

vou me comendo)

 

arde, sem que eu veja onde

calcina, sem que saiba o quê

(o quê?)

 

o labirinto perdeu portas

e o palácio amalgamou-se

(a mal

[g]amou-se)

 

nem fio, nem monstro

nem espada de cavaleiro

 

tropeço e gaguejo-

-me.

Mariana-me

Mariana, que se me olvidavas!

Não és tu como a primeira,

enamorada do farsante afrancesado,

aguardava,

nem como a  segunda,

filha de filiação enviesada

que mãe feliz é mãe castrada,

mas tu, nem espera, nem acidente de jornada

 de quem és,

chegas até onde for a madrugada. 

E até posso ser injusta

bela Marianinha alada,

mas a fama faz o monge

do hábito pela calada. 

 

 

 

A costureira já não mora aqui

Não fales mais que te cansas, quedei-me mouca e também desisti de me dizer. Que adianta a boca se a mão desmaia? Quem se discursa, costura-se e eu já perdi as linhas e engoli as agulhas. A largura do janelo basta à miudeza dos meus olhos e aos dedos enclausurados. Talvez seque e evapore como os lagos abnegados do verão. Como esta flor decaindo contra o céu. Que adianta a seiva se a palavra falha?

Composição - a falácia adversativa

Ele há homens

 

Ele há homens,

ele há homens que 

e ele há homens que não.

Ele há homens que sim,

ele há homens que cão.

 

-- Nem todos 

-- Nem todas são mortas 

(vão morrendo)

-- Nem todos

-- Nem todas comem

(vão comendo)

-- Nem todos 

-- Nem todas calam

(vão calando)

-- Nem todos

-- Nem todas. Nem todas. Nem nenhuma. 

 

 

 

 

 

 

 

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