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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Pedagogia proética

macera

implume cresce para o corte

o desacato, a húbris fina

desobedece

não a fiz p'rá conivência

p'ra posar sem desatino

a criança é como um verso

choca e abomina

 

 

 

 

20.20 FU 0101 turístico

No futuro seremos todos sobredotados

na arte da escanção 

online

e o Grande Algoritmo enviará 

nossos desejos numa bandeja alada

bip bip bip

virgens da antiga Saigão

bebés até aos três

(não nos responsabilizamos pela manutenção de víveres

submeta nova encomenda)

vestidos de algodão 

cultivado por surdos-mudos

pueris e implumes

na Birmânia

e 200 gr de bife do lombo

(um boi exclusivo, libações aos deuses)

Três quartos de mundo perorarão

atabalhoadamente

mas o Algoritmo All My Tea pintá-lo-á de cinzento

e destacará o recorte para a Reciclagem.

 

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o erro de Friedrich

Não fora Nietzsche, andávamos bem felizes a orar a Deus,

assim, voltámos as mãos para a humanidade

que, endeusada, se fez de mouca como os deuses que inventara.

Não se aponta a cauda do gato sob a rabadilha,

como não se desconfia do pacto de leitura,

perde-se o efeito surpresa,

e o que nós gostamos de ser enganados! 

 

 

vinte

Gosto de acordar com vinte anos,

não limpar os pés, falar com a boca cheia,

pôr a bandeira ao ombro,

cuspir para o ar e apontar os outros.

Mas o que mais gosto com vinte anos

é olhar p'rá frente e ter muito p'r' andar.

Saudade

 

Tinhas uma cadeira verde -- tu, nome doloroso, a outra, de cosmos --  era de plástico pintado e começava a descascar dos excessos encostos ao muro onde vinham as lagartixas consagrar tempo ao sol. Tu, escamosa. Nem passado, nem futuro, ausência temporal, gramatical e palpavelmente. Eras a guardiã da memória e franqueavas a porta de entrada antes de os cães nos saudarem encavalitados no seu amor pela nossa mão amorosa sobre as suas cabeças, o seu lombo, a infantil barriga cerúlea. E nós todos tão encarnados. Agora, que o tempo é de chuva e tu já não te sentas, nem a porta se protege, nem os cães nos ladram inteiros, e somos todos fantasmas da tua memória ridente. Foi Páscoa e tu não estavas, as tuas malas já gastas, nem o teu crucifixo empenado,  nem Cristo ressuscitou porque não me abriste a porta. Se tu não vieres, também não lha abrirei. Agora, que  o tempo é de chuva de maio, nem o sol de junho me consola, sei que vais ofertando portas a outros que se despedem irremediavelmente. E as nossas cadeiras cada vez mais ausentes, lidando a orfandade.

A pequena voz perguntou se estava triste e eu respondi que primeiro estamos muito, depois, só de tempos a tempos. Omiti que a tristeza não cresce, nem diminui, apenas se mostra esporadicamente, na mesma proporção da primeira hora. E que não deixa de ser egoísta, que a saudade de uns é a antecipação da dos outros -- omiti também. 

 

In memoriam

t D, t C