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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Converteu-se ao silêncio ou emudeceu?

Já não me recordo se me contaram, ou se, numa das minhas deambulações citadinas, concluí esta história de um rosto que levitava sob a lente castanha que me salvaguarda o olhar. De qualquer forma, é real: esta é a história de uma mulher que trazia tantas palavras na boca e no pensamento que, na impossibilidade de as verter, emudeceu. 

 

Era uma mulher que vinha de longe e se havia sentado no primeiro degrau da escadaria. As palavras pesavam-lhe na cabeça e ela mais não pôde do que sentar-se ali, à sombra dos que passavam. Procurava distração no magote de pessoas que ali se representava, mas os botões dourados do sobretudo de um transeunte que esbarrava com todos os outros, depressa a consumiram, martelando uma modinha sobre "o sol dourado que no sangue de escarlate se vertia". Esfregara os olhos, mas mais não viam do que a estampagem das palavras em série, um telhado "negro como os cabelos de uma cigana que saiu à rua numa noite mais clara do que a madeixa que se soltava do capuz que a encobria", uma cruz da "igreja onde um homem se quis pregar no madeiro que balançava sobre os bancos de madeira polida, e se sentava sob a mesma, anotando a forma mais eficaz de a alcançar", e então a mulher fechara-os, empurrando a solidez das frases em catadupa para dentro, para dentro, as mãos como represas, a boca murada. 

Haviam sido horas, dias, semanas, meses, anos e décadas de privação. De ruído, de estridência, de roufenhares, apenas. De prenhes silêncios interrompidos, de reflexões emaranhadas subitamente por um grito, por uma luminescência contrita. De diálogos reclamados e eternamente indeferidos. De carícias escusadas. E de carências. E assim, as palavras que dos silêncios de harmonia brotam, atrapalham-se na escalada, vão-se acumulando, azedando no desfiladeiro. As palavras que inauguram sentidos, na azáfama dos bulícios, das imposições, do estardalhaço das horas, ameaçam apenas, calcinantes na garganta. 

Pesavam-lhe as palavras na cabeça, pressionando a voz, desaguada, nos alvéolos pulmunares repousando. 

A estridência, a desatenção, a negligência, o viver sozinha entre a multidão cegada pelos holofotes imediatistas, interromperam-lhe a voz, suspenderam-lhe a sintaxe, deixaram-lhe frases exclamativas por entoar e parágrafos declarativos sem informar, e cessara-se, assim, a palavra. Mas não o pensamento, que, amorfo, cuspia reflexões a cada abalo. 

E a mulher emudeceu.